Novas modas na Vila Cruzeiro

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Vila Cruzeiro’s Next Top Model. Mas com meninas que trazem um quê de funk, glitter, shortinhos customizados, black power e correria para chegar na oficina de moda realizada pelo projeto Império, na Vila Cruzeiro, na Penha. Muitas meninas chegavam atrasadas, vindas da escola ou do trabalho. A maioria tem idade entre 15 e 29 anos. O projeto idealizado por Mayke Machado, Daniel Alban e Bruno Borges tem o objetivo de dar visibilidade ao potencial estético das jovens da comunidade e de seu entorno, repensando os corpos presentes nas fotos e passarelas, além de adicionar mais um ponto de circulação de moda no Rio de Janeiro.

O Império começou no ciclo 2012 da Agência de Redes para Juventude. A primeira ação realizada pelo grupo foi a coleção de camisetas em homenagem à símbolos dos Complexos da Penha e do Alemão – como a Igreja da Penha – além da estampa especial com a cantora Valeska Popozuda, símbolo de uma nova representação da luta feminista através do funk. Para investir nessa nova visibilidade, o projeto criou uma nova frente de ação: as oficinas de modelagem. As oficinas acontecem durante a noite, no espaço Atitude Social. Um dos objetivos do projeto é ressaltar essa beleza tão presente nas periferias do Rio, mas pouco valorizada.

“Eu estava indo na padaria com minha mãe quando eu vi aquele cara me olhando, até que ele [Mayke] chegou até a mim e disse que eu estava perdendo tempo com tanta beleza”, comenta Rosilane Souza (16) sobre a forma como foi descoberta por Machado. Ela já quis ser delegada, mas a empolgação foi tanta que a participação no curso não ficou só nela: levou mais três primas, Laísa Cristina (16) e a Larissa Cristina (15).

Raissa Souza, de 16 anos, sempre desejou ser modelo. Moradora da Cascatinha, bairro próximo à Vila Cruzeiro, sempre quis ser modelo e encontrou na oficina a oportunidade perfeita. “Eu sempre quis modelar. O pontapé inicial foi quando minha mãe começou a trabalhar com uma agência de moda. Eu fui lá visitá-la e ver como ela trabalhava e me encantei”, conta a jovem.

As oficinas passam pelas técnicas de desfile e fotografia. “Muita gente pensa que é fácil, mas tem que ter muito treino pra subir no salto bem alto e caminhar na passarela”, conta Raissa. “Acho que desfilar em forma de T é o mais difícil, porque ir lá na frente, andar mais um pouco e voltar em sincronia com outras meninas não é fácil”, completa a jovem sobre os repertórios adquiridos do mundo da moda e os preparativos para o desfile de conclusão do curso.

Misturando referências, os jovens criadores do Império criam uma agência de moda que pensa a beleza na moda de forma positiva.

O desfile fará parte do Império Afro, evento que acontecerá a Arena Dicró no dia 20 de novembro, em celebração do dia da consciência negra. “Eu sou preta, mas nunca tive nenhum problema com isso. Mas acho importante o desfile para realçar essa beleza ”, comenta Rosilane. No evento, todos os modelos estarão vestindo trajes africanos, do mais tradicional ao mais moderno – um mix com a moda carioca. Além disso, a presença do Bonde das Bonecas, mais um ícone jovem do funk da comunidade, promete agitar esse dia.

Para Daniel Alban, a pegada do Império é investir na moda como aumento e expressão da autoestima. “Quando você trabalha como modelo é até cruel. Você é julgado 24 horas dia por sua imagem. O diferencial da Império dentro dessa onda é que a gente pega pessoas que seriam discriminadas numa seleção e falamos para elas que são capazes, tem sua beleza e podem mostrá-las pro mundo. As outras agências baixam a autoestima, a gente não”, conta um dos coordenadores do projeto, cuja inspiração vem Jean Paul Gaultier, um dos primeiros estilistas a levar uma modelo transsexual para a passarela.

Essa agência de moda, criada por jovens de periferia e com as mais variadas referências – da mais alta costura até Valeska Popozuda –  colocam a periferia e seus moradores na rota de ressignificação da moda na cidade.

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