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Rocinha lembra sua origem

Em 2012, Michel Silva, com 17 anos à época, era um jovem desinteressado. Passava muito tempo no computador, sem fazer nada. Ou pelo menos é essa a história contada por Michele, sua irmã mais velha. “Ficava o tempo todo no computador e ninguém entendia, a gente achava que ele estava à toa”.

Michel, na verdade, estava aprendendo “coisas de html“, ela conta. O menino, hoje com 21 anos e estudante de jornalismo na PUC-Rio, tocava um blog sobre a Rocinha, onde sempre morou, e tinha vontade de transformá-lo num jornal impresso. Foi essa a ideia que ele desenvolveu no ciclo de estímulos daquele ano, quando foi aprovado na banca da Agência. Em maio de 2013 ia pras ruas da comunidade a primeira edição do jornal Fala Roça.

Nesta época, Michele era produtora local da Agência e acompanhava o projeto do irmão à distância. Durante o ciclo, os jovens foram provocados de diversas maneiras, até encontrar o que diferenciaria o Fala Roça dos outros jornais locais. Com o tempo, viram que a cultura nordestina seria o elemento de destaque, afinal, a grande maioria da população da Rocinha é imigrante ou descendente de imigrantes nordestinos. “O Fala Roça busca recuperar a cultura nordestina e valorizar essas pessoas que construíram a Rocinha que a gente tem hoje”, explica Bia.  A jovem tem 21 anos e também estuda jornalismo na PUC.

Todos os integrantes do jornal têm familiares nordestinos. O esforço para manter atados os laços desses moradores com sua origem é claro, apesar da pouca idade dos membros do projeto. “Muitos vieram há anos e nunca voltaram para suas cidades, perderam o contato com sua terra natal”, considera Bia. O jornal é uma forma também de homenagear os moradores. As meninas explicam que o público do jornal hoje é uma galera “mais velha”, e eles têm de lidar com problemas como a considerável taxa de analfabetismo.  “Tudo que se falava sobre a Rocinha era negativo. Só saía alguma coisa na televisão quando era pra falar de tiroteio, de morte. E quando a gente colocou o morador como protagonista de boas histórias, isso gerou uma empatia muito grande. As pessoas querem se ver, ver seus vizinhos no jornal”, comenta Michele.

A maioria dos leitores do jornal são pessoas vindas do nordeste a muitos anos. Foto: Kita Pedroza

Agora, a galera do Fala Roça tem planos ousados: dobrar a tiragem e a equipe do jornal. Michele explica que uma coisa está atrelada à outra, porque é a própria equipe que faz a distribuição do jornal, logo, não adianta aumentar a tiragem e não aumentar a equipe. “É na distribuição que nós entramos em contato com o morador. É o momento mais importante, quando conseguimos ouvir as histórias mais iradas, porque paramos pra conversar com os moradores”, Michele. Para começar, Tainara se integrou à equipe há pouco tempo.

Ela tem 20 anos, faz pré-vestibular na Maré, onde mora, e quer cursar Serviço Social. Além disso, namora Michel, mas não foi só por isso que quis participar do Fala Roça. Tainara contou conhecer o jornal O Cidadão – um dos jornais comunitários mais antigos do Rio ainda em atividade, feito na Maré – desde criança. “Cresci vendo o jornal ser distribuído, mas não pude me envolver muito, porque moro na Vila do Pinheiro e a sede do jornal é na Nova Holanda”.

Em 2015, o Fala Roça é um dos projetos selecionados para fazer parte da Rede Agência. Além de dobrar a tiragem e a equipe, portanto, o jornal tem três desafios pela frente: desenvolver a linguagem; aprofundar a ação no território; se institucionalizar.

Quer ler o jornal? É possível encontrar exemplares na Biblioteca Parque da Rocinha ou acessar a edição online no site http://www.falaroca.com.

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