PASSEI A VISÃO

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Aprender fazendo ou ensinando alguma linguagem ou ação cultural sempre foi uma prática dos fazedores culturais de origem popular. Seja para levantar dinheiro para despesas pessoas, espetáculos ou para propagar conhecimentos, a realização de oficinas formou muitos dos grandes realizadores de hoje. Como forma de celebrar e entender os processos de criados por Pontos de Culturas e outras iniciativas culturais de cunho popular, o Pontão de Cultura realizou o encontro Passei a Visão: Oficinas, Aulões, Escolas Livres e Metodologias.

O evento teve a duração de dois dias. No primeiro, a programação contou com oficinas na Arena Jovelina Pérola Negra e no Colégio Estadual Hilton Gama, na Pavuna; e no segundo, debates no Memorial Municipal Getúlio Vargas trouxeram trocas de experiências e visões sobre o histórico da prática de oficinas nos anos 2000.

PAVUNA: EXPERIÊNCIAS DE CRIAÇÃO COLETIVA

Para o primeiro dia do evento, o Pontão reuniu um time dos melhores oficineiros do Rio de Janeiro. Alice Ripoll (Dança); Gabriela Macena (contação de histórias e cultura brincante); Iara Amora (Direitos); Beá Meira (Artes Visuais); Mirella Rosa Vieira (alimentação saudável); e Verissimo Junior (teatro e território). E como parte do processo formativo, jovens criadores de projetos a partir da Agência de Redes para Juventude participaram como assistentes.

Mirella Vieira, da Gastromotiva, ministrou a oficina de alimentação saudável. A experimentação de novos sabores - nem sempre tão agradáveis - pelas crianças gerava risos e descobertas sobre os alimentos. Elisangela Cielo (Horta Inteligente) foi assistente na oficina.

Verissimo Junior, professor de artes cênicas e criador do Teatro na Laje, ministrou a oficina de Teatro e Território com jovens que nunca antes tinham entrado na Arena Jovelina Pérola Negra. E olha o envolvimento da galera!

O público alvo das oficinas foram os alunos de escolas públicas da região. A mudança na rotina escolar não foi boa só para os jovens, mas também foi vista com entusiasmo pelos professores. Para Raquel Safra, professora de espanhol na escola Hilton Gama, qualquer atividade que anime a turma é uma forma de aprender. “Eu gosto de coisas em que eles se interessem. O aprendizado vai além da língua espanhola”, conta a jovem professora que está realizando com os alunos uma apresentação de Flamenca (uma dança de origem espanhola).

“A primeira coisa que você vê quando entra numa escola é o trabalho da aula de artes”, destaca a artista plástica Beá Meira, que ministrou a oficina de Artes Visuais. O som típico das escolas; o cheiro do almoço quase pronto no refeitório e os diversos cartazes colados no pátio da Colégio Estadual Hilton Gama receberam uma das três oficinas promovidas pelo evento.

Iara Amora, advogada e coordenadora de projetos da CAMTRA, conduziu um bate-papo sobre ser mulher hoje no Brasil e as diversas violências que permeiam o gênero.

Para Daniel Lohan, de 16 anos, a prática de desenhar ganhou novas definições. “Às vezes parecia uma academia, era tanto sobe e desce. Achei que desenhar era só na mão”, conta o jovem. Seu colega de turma, Nathan Silva, 17, não só participou do exercício proposto, bem como registrou o momento em diversas fotografias feitas em seu celular. “Hoje eu aprendi a trabalhar em equipe. Porque eu só gosto de fazer as coisas sozinho. E acho que só consegui fazer porque foi aqui embaixo”, revela o jovem.

Para Lucas Ururahy, coordenador do projeto Sepetiba em Foco, assistente de Béa, durante o evento, saiu com novos encaminhamentos para o seu trabalho. “Ao invés de ficar maluco, pra lá e pra cá correndo, é melhor criar grupos em que cada um sabe o que fazer”, conta o jovem que ministra oficinas de audiovisual e artes visuais em Sepetiba.

A coreógrafa Alice Ripoll e Fernando Espanhol (Descolados), assistente de Alice durante a oficina de dança, observam os alunos minutos antes da apresentação da coreografia montada por eles.

Daniela Macena ministra a oficina de brincadeira e cultura brincante junto com Denise Andrade (A Brincadeira Não Pode Parar).

O BOOM DE REALIZAÇÃO POPULAR

O segundo dia do Passei a Visão foi dedicado ao pensamento das oficinas. Essa prática foi um meio de forjar novas práticas de cultura e juventude e até mesmo políticas públicas.

“A oficina tem um poder mobilizador, disparador, e tem um poder revelador se tiver o compromisso de dialogar com as potências do território. Mas se for apenas um sobrevoo rasante para depois ir embora, não vale”, disse Veríssimo Junior, professor de Artes Cênicas, diretor e fundador do grupo Teatro na Laje. Esse caráter das práticas de oficina encontrava eco na trajetória dos outros integrantes da mesa.

O segundo dia do Passei a Visão contou contou com a presença de realizadores da periferia de diferentes gerações.

Raquel Spinelli, do Providenciando a Favor da Vida, Fernando Espanhol, do Descolados, e Ecio Salles (FLUPP) integram oficinas de diferentes formas em seus projetos. Para Ecio, idealizador da Feira Literária das Periferias, a mobilização de público para oficinas e qualquer outro evento é um dos grandes aprendizados deste anos de realizações.

“A primeira coisa é que você não pode transferir para as pessoas apenas a responsabilidade de ir. Quem é o seu público? Não sabíamos por que tínhamos acabado de começar, e nossa evento era de literatura. Quem é que vai para um negócio desse? Você faz um baile um funk e você tem a esperança que quem gosta de funk vá. Mas em literatura a gente não sabia quando começou. Tem uma coisa que é o tempo. Dar tempo de maturação para os projetos.”, explicou Écio.

Já a segunda mesa contou com a presença de Diego Bion (Escola Livre de Cinema); Eduardo Alves (ESPOCC – Escola Popular de Comunicação Crítica); Gustavo Melo (Grupo Nós Do Morro); Eliane Costa (FGV); e Mercia Brito (Cinema Nosso). O tema debatido foi O boom das oficinas de audiovisual na periferia no ano 2000.

Segundo Eliane Costa, que durante sua fala celebrou a presença de mais jovens de origem popular em editais públicos de incentivo a cultura, acredita que a expansão da cultura popular nos anos 2000 foi possibilitada através da criação dos Pontos de Cultura. “A expressão da cultura da periferia explode. Muitos puderam falar para muitos. Isso principalmente com o advento dos Pontos de Cultura como política pública”, conta Eliane, que destaca ainda que esta iniciativa não só engrandecia iniciativas já existentes, mas também possibilitava outras já que todos os contemplados tinham que montar um núcleo multimídia.

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