Olha pro lado, é a kombi da Vila Cruzeiro passando!

A Bússola
30 de Janeiro de 2013
Jovens realizadores se encontram na Pavuna
6 de Fevereiro de 2013

No último sábado, jovens que desenvolvem 42 projetos  na Agência de Redes para Juventude voltaram à Pavuna para um encontro de realizadores artísticos durante o festival Arena da Palavra de Verão – que celebrou 1 ano da Arena Carioca Jovelina Pérola Negra, a primeira da cidade.  A programação reuniu teatro, samba,  cinema e dança. Após cada apresentação, os jovens debateram com realizadores  sobre outros processos artísticos que compartilham de um mesmo objetivo: construir um novo modo de viver a cidade.

O dia começou com o espetáculo teatral A viagem da Vila Cruzeiro à Canaã de Ipanema numa página do Facebook, do grupo Teatro da Laje – criado há 10 anos no Complexo da Penha pelo ator e diretor Veríssimo Junior. A peça levou aos palcos da Pavuna as aventuras dos jovens da Vila Cruzeiro na sua saga até a praia e conta com os atores Camila Gamboa, Igor da Silva, Leandro Nunes, Daivson Garcia, Marcos Jonathan e Hugo Bernardo – que arrancaram várias gargallhadas do público. E não eram risos gratuitos, os jovens têm demonstrado um apurado senso crítico, refletindo sobre sua realidade quando apresentados a obras feitas também por jovens como eles.  O espetáculo procura envolver (através do riso) ao invés de simplesmente “conscientizar”.

“Eu pensei que ia ser chato, mas a peça é muito legal”, disse Julio Basílio, 16 anos, do projeto Nós por Nós.

Logo após o espetáculo, aconteceu um debate acalorado com a equipe da peça. Muitas questões surgiram em torno do processo de criação. O texto da peça foi construído a partir da reunião de experiências dos moradores da Vila Cruzeiro e várias cenas foram sendo testadas para compor uma obra maior.

A busca do Teatro da Laje é encontrar o lugar do teatro no mundo contemporâneo, não só nos temas, mas na linguagem. Nesta peça, por exemplo, não existem diálogos como costumamos ver, a dramaturgia está também nos efeitos sonoros, no corpo do ator e na trilha musical, que combina Roberto Carlos, Ultraje a Rigor e vários funks.

Depois de toda essa conversa que colocou em evidência esse encontro de potência da cidade, não poderia acontecer outra coisa: formação de redes!

Ana Clara e Filipe Oliveira, que coordenam e produzem o grupo de teatro A Arte Imita a Vida, nas comunidades do Borel e da Casa Branca, conversaram com Verissimo Junior sobre questões comuns ao processo do Teatro da Laje.

Juntos, eles destacaram dois desafios: conseguir manter os jovens no grupo de teatro e fazer com que a comunidade se importe com o projeto. “O que mais irrita um jovem é ver algo feito nas coxas”, alertou Verissimo. “É preciso ter seriedade no trabalho com os jovens, e não tratá-lo com mais um integrante de um ‘projeto social’. Pois diante de tantas possibilidades (e dificildades) na vida, é muito fácil perder-se no meio do caminho. É preciso  aliar firmeza com flexibilidade”, completa.

Quanto ao reconhecimento dos moradores, para Verissimo, foi importante sua posição de professor na comunidade. “É a única profissão que ‘rivaliza’ com pastor e médico”. Mas ele afirma que o projeto só será bem sucedido quando existirem pelo menos mais cinco como ele na comunidade. Para o Arte Imita a Vida, fica a noção de que é preciso superar pequenas brigas de vizinhos e inimizades para fazer com que o projeto cresça.

Por volta das 12h, os jovens atores recolhiam os objetos do cenário. Não escaparam da tietagem de alguns jovens da Agência, como de Fred Castilho (28 anos, do Boreat – Borel). “A peça é muito irreverente”, disse ele, registrando no seu celular a foto que tirou com o grupo. E assim, a Kombi do Chatubão seguiria seu caminho de volta à Vila Cruzeiro, depois de ter levado a jovens de diversas localidades do Rio de Janeiro outras percepções da cidade. E o sol do meio-dia prometia muitas emoções ao longo daquela tarde.

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