Novos anfitriões do teatro

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A partir de hoje, 16 casas de favelas e demais territórios populares, serão palco da Mostra Cenas em Casa do Festival Home Theatre. Essas casas são de jovens envolvidos na metodologia da Agência de Rede para Juventude que, a partir dos seus projetos, já criaram novas narrativas para seus territórios e que ao receber as cenas aprofundam a proposta do Festival: fazer da cidade o suporte do teatro e não só o tema. Fazer do jovem o mobilizador de público, o anfitrião. E potencializar o território,  transformando as casas nos palcos. São casas que abrigam gerações e gerações de alguma família e que vão aumentando de tamanho conforme novos membros vão surgindo. São casas em que todo canto serve à criação: a escada, a sala de estar, o quintal, a varanda e nos quais os atores vão presentear moradores e convidados com suas cenas.

O Home Theatre – Festival Internacional de Cenas em Casa começou ontem e vai até dia 31 de maio. A programação conta com diversas mostras e vai apresentar mais de 30 cenas de diversas partes do Brasil em casas de diferentes partes da cidade, além de seminário e oficinas gratuitas.

Marcelo Guerra em Modesta proposta gourmet, uma das primeiras da terceira edição carioca do Home Theatre. Foto: Davi Marcos

Um outro centro

O Morro do São Carlos vai receber pela primeira vez uma cena do Festival. O palco será a casa de Bianca Ribeiro, uma das integrantes da Livreteria Popular Juraci Nascimento. “Eu conheço essa família há bastante tempo, mas a frequência lá é recente. Começou quando Bianca e Thais iniciaram na Agência junto comigo”, conta Guilherme Vinicius, coordenador da Livreteria. “O engraçado é que tudo de bom acontece nessa casa. As resenhas acontecem aqui. A mãe [das meninas] é bem aberta”, completa o jovem que ajudou a arrumar a sala da casa, tirando o sofá para que caiba mais pessoas – ao mesmo tempo acomodá-las confortavelmente.

Winny Rocha é o criador de A Dor da Gente Não Sai no Jornal que vai se apresentar amanhã na casa de Bianca. Natural da periferia do Espírito Santo, de Cariacíca, e atuante em Minas Gerais, ele não perde a oportunidade de conhecer espaços fora da rota turística. Portanto, estar no São Carlos e na Cidade de Deus é como estar em casa. “É coisa de preto para quem é preto – e pra quem não é. A ideia principal é humanizar os números das mortes da juventude negra”, conta Winny, que acredita na necessidade de mudança do discurso do teatro e nos espaços de montagem. “Eu levei essa cena para escolas. E uma frase que ouvir mais de uma vez de professores foi: ‘como que eles [os alunos] ficaram tão quietos?’. Minha resposta é porque eles se identificaram”.

Várias casas em uma

A casa em que vive Flávia Brandão, criadora do Favela Jobs, existe a pelo menos 25 anos. “A casa era do meu pai e da minha mãe e virou um prédio. Eu moro no terceiro andar com meus dois filhos. Minha mãe morreu há três anos e ano passado, em novembro, meu pai decidiu dividir a casa” conta também estudante de pedagogia que abriu um tempo em sua rotina agitada para receber os amigos em sua sala.  “Eu acho super legal, meio que dá uma oportunidade para todo mundo, integrar diferentes públicos. Não é porque você tem uma sala pequena que você não pode receber o teatro. As pessoas que eu vou convidar não tem muito contato com teatro, então eu me sinto privilegiada em fazer essa arte mais parte da vida das pessoas”, completa ela.

Fabiola Godoi, de 28 anos, é de Suzano (São Paulo) e há três anos mudou-se para o Rio de Janeiro. Sua cena, Histórias de Chocolate “é o resgate da memória das pessoas a partir do que elas comem. Falo do meu aniversário e falo do que aconteceu na minha casa”, conta Fabiola, que faz uma combinação dessa data especial e duas paixões: o teatro e a gastronomia. Ela destaca também que a proposta do Festival e da cena se encontram ao permitir o compartilhamento de intimidades ao colocar ator e público “olho no olho”.

Público na casa de Larissa Britto, que vai receber mais uma cena na terceira edição do Festival. Foto: Renato Mangolin.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Onde assistir

As casas de Edson Santos (Movimentos), André Pereira (MiniCheff), Marcos Mello (Brink’art), da Cidade de Deus; Thaina de Morares (Cine Batan), André Silva (o Salsa d’Os Descolados), Larissa Brito (Charme Favela) do Batan; Elisângela Almeida (Horta Inteligente) e Raquel Spinelli (Providenciando a Favor da Vida), da Providência; Isabela Santos (Boreart) do Borel; Diogo Vergílio (Rap na Reta), da Pavuna; Ronaldo Silva (Favela em Dança) e Cintia Marzano (Mona) do Cantagalo; Lucas Pablo (Rocinha); Alair Rebecchi e Rosa D’França, parceiros da Agência em Santa Cruz; também receberão cenas do Festival.

Confira aqui a programação completa e inscreva-se para as comparecer às sessões.

 

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