Novas lideranças: as mulheres da Providência

#naatividade: Elisângela Almeida
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Novas lideranças: as mulheres da Providência

Nos dias atuais, é notória a voz que a juventude vem assumindo nas lutas para mudar a cidade a partir do espaço que vivem.  Nossa matéria especial busca conhecer melhor três dessas lideranças que atuam no Morro da Providência: Raquel Spinelli (29), Wylliana Lopes (24) e Elisângela Almeida (18). Em comum, as três são jovens mulheres que criaram projetos através da metodologia da Agência de Redes para Juventude, cada uma atuando numa frente diferente de impacto no território.

 A VIDA E FAVELA ANTES DA AGÊNCIA

Elisângela Almeida, 18 anos - Horta Inteligente.

– Quando eu vim pra cá (Rio de Janeiro), eu fiquei um pouco traumatizada. Lá na Bahia não era assim, porque eu morava mais pro interior, em Vitória da Conquista. – relata Elisângela Almeida quando relembra a chegada ao morro para morar com a tia.

A cidade de onde vem a jovem de 18 anos tem “o desenvolvimento muito devagar”, mas não foi só o ritmo diferente que impactou a menina.

– O que me chocava era o lixo que eu via espalhado pela comunidade, crianças no meio, brincando –  conta ela que na Agência está desenvolvendo a Horta Inteligente na Providência, um trabalho educacional para crianças do ensino fundamental.

A Raquel Spinelli já está vivendo o 4º Ciclo da Agência e aprofundou suas relações com a Providência na adolescência. Moradora da região desde o primeiro ano de idade, ela afirma que circulava a cidade somente pela Zona Sul.

– Depois que eu comecei a ter amizade no morro, na rua e a conviver mais com o pessoal, eu gostei mais da realidade daqui. Eu via certa falta de algumas coisas, mas, antes eu não sabia como fazer nada quanto a isso – conta Raquel a coordenadora do Providenciando a Favor da Vida.

Wylliana Lopes, que veio ainda pequena do Rio Grande do Norte, passou pela metodologia no ciclo de 2012, desenvolvendo o projeto Agência Pró-Futuro. Para ela, a experiência da Agência foi uma forma de expressar seu desejo de mudança da relação que a maioria das pessoas tem com uma parcela da população da cidade: os moradores de rua.

– Sempre me incomodou a sujeira na Central do Brasil, as pessoas sendo comparadas com lixo. Isso era algo que batia forte no coração. Então, fui desenvolvendo meus pensamentos em relação essas questões sociais. Entrei na faculdade, mas, foi fazendo exatas e agora vou mudar pra Ciências Sociais. É minha vocação, o que eu gosto.

ATUAÇÃO NO TERRITÓRIO

Wylliana Lopes, 24 anos - Agência Pró-Futuro.

Providenciando a Favor da Vida, pensado por Raquel Spinelli, é uma rede de solidariedade assistindo mães e provocando reflexão sobre serem autônomas enquanto jovens mulheres. É um dos projetos há mais tempo na Agência e está desenvolvendo uma metodologia própria de trabalho com as mães e as famílias. O projeto, que se encontra agora na Rede Agência na fase de consolidação, continua com os encontros sobre sexualidade e planejamento familiar através de palestras e ampliou a geração de renda com a criação da grife Pedacinho de Mim, oferecendo curso de customização de roupas. É também oferecido oficinas mais curtas, como a de decoração e biscuit, que pode complementar o lucro das jovens, ou é planejado enxoval dos bebês esperados por jovens da comunidade.

– Eu ainda acho pequeno o resultado. Mas no dia a dia, com algumas pessoas, a gente consegue identificar que o nosso trabalho tem resultado. Levou a reflexão de algumas coisas, levou ao planejamento de outras – declara Raquel, que tem o desafio de ver o projeto reduzir a estatística de gravidez na adolescência.

Wylliana também trabalhou pelas novas possibilidades no território através da criação da Agência Pró-Futuro. O foco era na qualidade e segurança de vida para moradores de rua do Centro do Rio. O que seu projeto promoveu almoços entre ex- moradores de rua, vivendo em abrigo, e convidados dispostos a ouvir suas histórias. Esses encontros resultaram em motivação, afeto e futuras redes que conseguiram dar a essas pessoas uma alternativa de estilo de vida, já que a maioria deles queria voltar a trabalhar e gerir a própria vida.

–  Nós fomos trabalhar diretamente num abrigo próximo a Providência e vimos que nem todos os moradores de rua tem acesso, porque tem muita burocracia para que eles possam viver nesse abrigo. Então o projeto fez um pouco naquele momento, depois é como se não tivesse existido. Então, eu pretendo dar continuidade ainda porque faz diferença, mas muitos não percebem.

O nome Edival Ornelas acabou retornando à memória da jovem nesse momento. O ex-morador de rua hoje trabalha como caminhoneiro e viaja por todo o Brasil. Era esse o sonho dele que foi realizado junto com a equipe da Agência de Redes e Thiago Pondé,  o convidado “padrinho” do almoço. A realizadora do Pró-Futuro relembra que por Edival morar em abrigo, não tinha oportunidade de emprego, e a através de articulações do projeto ele chegou aos meios de garantir a profissão desejada.

Elisângela encontra-se na Desencubadora, fase em que os projetos preparam-se para realizar suas primeiras ações. A ideia já passou por vários caminhos até focar na criação da horta, como uma forma de estimular a atenção para questões ambientais.

– O meu [projeto] ainda está iniciando, mas, como já divulgo, muita gente me pergunta pelo projeto e se vai acontecer mesmo. Os diretores e professores da escola que eu fui divulgar adoraram, falaram que é muito bom – declara a mais jovem das três.

UM NOVO CIRCULAR PELA COMUNIDADE

Raquel Spinelli, 29 anos - Providenciando Vidas.

– Eu posso responder essa por ela! – salta Elisângela diante da timidez de Raquel em avaliar sua imagem entre os moradores da Providência – “Você conhece a Raquel?” Todo mundo fala na Raquel quando procura um emprego. “Sabe onde a Raquel fica?” Para mim, ela é uma grande referência aqui na Providência, porque eu vejo as pessoas procurando por ela, quando precisam. Entendeu?

– Não era muito o que eu queria, não. Mas o Providenciando dependia de mim, era eu que fazia tudo e minha cara ficou conhecida em todos os lugares. Agora eu tenho uma equipe. Não é o projeto da Raquel, é o Providenciando. Foi importante numa época porque eu tive que meter a cara para fazer, todas nós, não tinha como ser outra pessoa  – afirma Raquel, planejando para o próximo ano uma sede própria para o Providenciando.

– Eu me vejo muito corajosa, porque eu sou conhecida pelos moradores de rua. Eu passo e o morador de rua Bracinho –  o apelido dele é Bracinho-  me vê e diz: Wylliana, Wylliana, vem cá! Tô precisando de um chinelo. E aí eu falo: No que você precisar ajuda, a gente tá aqui. E eu me vejo muito corajosa, porque colegas diziam que não ia dar certo, que morador de rua é muito difícil, mas eu acreditei.

A forma de olhar seu papel na comunidade também é positiva para Elisângela.

– Quando eu vim pra cá, eu ficava escondida. Ninguém me conhecia. Eu ficava só dentro de casa, não via as pessoas do lado fora, tanto que eu não tinha um amigo. Agora eu passo na rua com todo mundo que me vê, eu acho que as pessoas já estão me vendo.

Para Thiago Pondé, bacharel em filosofia e um dos tutores da metodologia da Agência, cada um dos projetos tem características diferentes.

– Quando se fala do impacto do trabalho, eu acho Pró-futuro teve um impacto na vida daquelas pessoas. Vidas que precisam de um suporte. O Providenciando encontrou uma missão mais complexa porque, como a Raquel descobriu, essa questão da gravidez na adolescência e mulheres mais jovens é uma questão bastante comum na Providência, só que ela tem uma metodologia bastante articulada para as jovens.

A coragem e a percepção de que é preciso disputar espaços no Rio de Janeiro são o que forma as essas lideranças. A Agência de Redes para a Juventude propõe aumentar as alternativas para partir da juventude a ocupação desse papel de importância na cidade. São os jovens de periferia, como as três protagonistas dessa matéria, os criadores dos ponto e ações capazes de mostrar caminhos para uma cidade menos desigual.

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