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Negritude feminina assume as passarelas na Penha

A negritude jovem feminina dos Complexos do Alemão e da Penha subiu nas passarelas no último dia 20, na Arena Dicró, em celebração ao dia da consciência negra. O Império Afro foi a ação de conclusão das oficinas de moda realizadas pelo projeto Império, desenvolvido na Agência de Redes Para Juventude, por Mayke Machado, Daniel Alban e Bruno Borges. Com o intuito de promover um debate sobre as questões raciais no mundo da moda, o evento contou também com uma exposição de fotografias realizada pelos fotógrafos Bruno Borges e João Paulo, que também é dançarino.

A participação da imagem do negro no mundo da moda, dos universos publicitário e midiático em geral é sempre reduzida e muitas vezes estereotipada. E foi pensando nesses mercados, que pouco abarcam a beleza negra das periferias cariocas, que surge o projeto Império, que através de cursos de formação de modelos para jovens mulheres quer mostrar criar uma nova representatividade para essas pessoas.

“Já trabalho com militância, com a afirmação da beleza negra há um tempo. Trabalhando no mundo da moda você percebe que são sempre [as modelos] com traços eurocêntricos que são cotadas para apresentar a moda carioca”, disse Daniel, que ratifica a informação das estatísticas, onde as modelos negras não chegam a ocupar nem 5% dos elencos dos grandes desfiles. “Um desfile como esse, com a maioria das modelos sendo pretas, no dia da consciência negra, é uma forma de militância, de inclusão. E incomoda porque enaltece o que não é enaltecido na indústria da mídia”, afirma Daniel.

Antes de começar os desfiles muitos dos convidados se sentiam atraídos pelas fotos em exposição na Arena. Tiradas por Bruno Borges e João Paulo, o ensaio foi feito com as meninas de 12 a 25 anos que participaram das oficinas. “Essas fotos retratam o empoderamento, retratam a vivência dessas mulheres. A negra guerreira. Cada mulher da foto mostra a força feminina que possuem”, comentou João Paulo, sobre o objetivo dos ensaios. O preconceito vivido pela juventude feminina não é apenas pela cor, mas também pelo seu próprio território de origem. “A gente já sofre o preconceito por morar em áreas periféricas. Então esse ensaio é uma forma de quebrar esse estigma, quebrar esse estigma através do realce da beleza, do olhar”, contou o fotógrafo.

 

Depois do desfile jovens posam com a blusa do evento

O desfile começou às 19h. As meninas desfilavam com roupas de estampas afro com tecidos feitos de materiais recicláveis. Como nos ensaios, as diferentes idades se revezavam na passarela que era ocupada em sua maioria por meninas negras de origem popular. Quanto às jovens, muita ansiedade. Rosilane Nascimento (14) e Agatha Miranda (12),  paravam a cada passo para bater uma foto. Permaneceram com a roupa do desfile mesmo depois de passarem pela passarela. “Eu não tenho vergonha, eu entrei no palco com confiança. Eu acho o evento ótimo, mostra que eu sou negra, que eu gosto de ser assim”, comentou. Já Sônia Maria de Souza, de 64 anos, uma das vizinhas do entorno, veio assistir o desfile e ficou impressionada com a beleza das jovens e comentou sobre a como os negros aparecem na mídia brasileira. “O negro tem de que ter espaço. Nas propagandas, nas novelas, a gente ver sempre a mesma coisa”, pontuou a moradora.

Na plateia, além dos familiares e moradores da comunidade e adjacências, modelos profissionais vieram conferir o evento. Alexandre Castro (34) e Cristiano Nogueira (33) eram um dos modelos que vieram prestigiar o evento.  “O evento é uma iniciativa muito interessante porque mostra para as pessoas daqui a importância da sua beleza. É muito importante essa questão da representatividade, pois ela contribui muito para a autoestima do negro”, comentou Alexandre. “Elas desfilando hoje mostram pra elas mesmas que elas podem sim ser modelos e  outras coisas se quiserem”, comentou Cristiano.

Jenny Macena (21), Adilene Oliveira (29) , Luciane Oliveira (23) , Dilma da Silva (25) e Alana Chaves (20), foram modelos convidadas para contribuir com o desfile das jovens.  No bate-papo, foram quase unânimes ao contar sobre a escassez de negras no mercado da moda e a padronização estética limitadora da indústria. “Eu trabalho como modelo desde os 16, mas tenho feito universidade de administração. É uma área muito instável com muita competitividade. Tem pouquíssimas negras nas passarelas e por isso mesmo a competitividade aumenta”, comentou Jenny. Já Adilene Oliveira pensa em trabalhar com produção de moda, mesmo sabendo das dificuldades da área. “Eu estudo moda em Caxias, e pretendo seguir nessa área, não só como modelo, mas como produtora mesmo. Eu penso em desfiles com modelos plus size também, é importante a presença de novos biótipos”, conta a modelo que também é estudante de design.

E pensando nesses novos biótipos, o desfile estava bem plural.  Thayane Silva, de 21 anos, entrou nas oficinas já sabendo que não era nenhum padrão, mas que ainda sim gostaria de ser modelo. “É a primeira vez que desfilo, antes eu fazia dança contemporânea, street dance e passinho. Assim que entrei nas oficinas vi que não era magrinha como as outras modelos, mas não me importei, continuei o curso mesmo assim, e pretendo desfilar mais”.

Os profissinais da área da moda discutem a importância do evento

O acontecimento na Arena Dicró marcou a presença da sociedade civil – organizada pelo desejo de jovens de periferia – na construção de novas representatividades que possam dialogar de forma mais direta com a realidade das jovens, intervindo nas formas estéticas predominantes do cotidiano. No dia da consciência negra, a negritude feminina da periferia carioca pisou na passarela e demonstrou como um evento pode suscitar uma reflexão, um olhar, um diálogo crítico sobre a identidade negra feminina e seu lugar de fala na cidade.

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