Nada de Nem Nem

Contagem Regressiva da CDD
30 de julho de 2014
Uma biblioteca lotada de novas ideias
5 de agosto de 2014
Exibir Tudo

Nada de Nem Nem

Por Ellen Rose e Tayane Reis

Mais de 500 mil jovens, de 18 a 24 anos, no estado do Rio de Janeiro não estudam nem trabalham. Seguindo esses dados do IBGE, a expressão jovens nem-nem é usada para classificar essa parcela da juventude. Durante o último encontrão da Agência na Arena Jovelina Pérola Negra, na Pavuna, Marcus Faustini apresentou a aproximadamente 250 jovens de periferia esta questão, revelando a eles os dados alarmantes por região do país, estado, cidade e bairros, chamando atenção para os números relacionados com os territórios ali representados – Centro, Rocinha, Pavuna, Maré, Cidade de Deus, Santa Cruz, Realengo – entre outros locais.

A intenção de trazer esse assunto para os jovens da Agência é, não apenas fazê-los discutirem e lamentarem a questão, mas motivá-los a se envolverem diretamente com ações contra esse problema. Por isso cada jovem, que está desenvolvendo seu projeto de ação no território, recebeu o desafio de atingir e envolver pelo menos quinze jovens nem-nem em seu projeto. Além disso, a Agência quer encontrar uma nova nomenclatura para ser usada. “Nós precisamos mostrar pro governo que não adianta só classificar esse jovem dessa maneira, porque parte de um pressuposto negativo… O nome que damos as coisas diz como as pessoas vão se aproximar delas. “Nem-nem”, a gente tem que mudar esse nome”, disse Faustini.

Ao longo do Encontrão dois bolsistas da Agência já criaram sugestões de nomes. Nós entrevistamos os dois e eles dividiram com a gente as suas impressões e sugestões quanto o termo. Se liga aí:

Daniel Cruz tem 18 anos é do núcleo do Batan e desenvolve o projeto Espetaculuz. Ele usou da poesia para se expirar e propor um novo nome.

Agência– O que você entende por jovens nem-nem?

Daniel – Quando o Faustini explicou, a primeira coisa que veio na minha cabeça são as pessoas que ficam o dia todo na favela, não sei se bom ou ruim, mas essas pessoas que ficam batendou perna, ficam sentadas numa praça, essas pessoas que realmente não fazem nada. Vieram essas pessoas na minha cabeça.

Agência– Sobre o nome “nem-nem”, você acha que esse nome precisa mudar? E por quê?

Daniel- Eu acho que tem que mudar sim. Porque quando a gente diz “nem nem” realmente traz um aspecto negativo da coisa, “nem pode, nem consegue”, eu acho que é pela fonética disso. ‘Nem-nem’, não é legal pra mim. Acho que tem que mudar, que já dá um aspecto negativo.

Agência- Qual é a sugestão de nome que você tem, e como você chegou à ela?

Daniel– Eu gosto muito de poesia, então  eu me coloco no lugar e brinco com as palavras com relação a isso. E a palavra foi ‘com-tudo’: com criatividade, tudo camuflado. Eu fiz uma ligação de coisas que essas pessoas precisam e têm. Elas têm criatividade, porém camuflada nelas mesmas. Eu fui um “nem-nem”. Eu fui uma pessoa que durante alguns anos eu parei de estudar e não fazia nada de produtivo, mas eu sabia que tinha criatividade. Porém, muitas das vezes eu não reconhecia e as outras pessoas não me davam oportunidades para que eu reconhecesse.  Hoje em dia eu consigo identificar que eu tinha toda a criatividade camuflada e estou conseguindo tirar algumas camadas dessa camuflagem.

Agência– Fale um pouco do Spetaculuz e como vocês acham que vão conseguir atingir e envolver 15 jovens “nem-nem” ou “tem-tudo” dentro da proposta do projeto:

Daniel– O Spetaculuz surge da nossa necessidade de fazer com que essas pessoas compreendam que elas podem continuar o seu lazer, o seu momento de tranquilidade, mas também podem assumir outras posturas e outros papéis, eu acho que isso é bacana. E a questão do teatro em si, toda pessoa gosta do teatro, só não conhece ou não tem acesso, mas já ouviu falar de um amigo que foi e gostou da parada. A formação de uma companhia no local dá a valorização para o ‘ser, fazer parte de uma companhia’. Eu acho que o trabalho de divulgação oral de quem está passando a proposta é muito importante também.

Agência– Você tem alguma ideia de como essa situação dos jovens “nem-nem” pode ser resolvida?

Daniel – Cara, eu bato um lero bem bacana com esse grupo, por ter vivenciado isso com eles. Eu consigo acompanhar a mente deles e não julgo tanto como as outras pessoas. E o que eu mais vejo e acredito que seria bom investir, são atividades que eles tenham interesse, como grandes circuitos ou eventos que puxem para as áreas de interesses desses jovens. Esse público tem um grande potencial cultural, gostam muito de música e se interessam por artes visuais. Também tem que ter uma imagem que chame atenção, por exemplo, o grafite. Eventos como esses fazem com que eles tenham conhecimento, encontrem cursos que participariam. Se o comum, que é sala, professor e quadro, não adianta, então vamos tentar de uma forma que faça eles se interessarem. Porque se a gente prende a atenção de uma pessoa por mais de quinze minutos, a gente ganha a atenção de vez e nada nos impede de em alguns intervalos fazermos colocações com um papo sagaz, um papo de futuro, como eles dizem.

 

Marcus Faustini fala com os bolsista da Agência sobre os dados de jovens que não estudam, nem trabalham no Rio de Janeiro. O desafio das novas ideias é atingir esse público.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Vitória Oliveira tem 15 anos, é do núcleo da Rocinha. Envolvida com alguns projetos sociais no seu território e agora idealizadora do projeto e já excluiu do seu vocabulário o termo “nem-nem”.

Agência– No último Encontrão vocês foram estimulados a pensar em um nome para os “nem-nens”. Qual foi a sua sugestão?

Vitória –Eu sugeri “tem-tem”:  Tem potência, tem criatividade, tem atitude… Usar nem-nem parece dizer que “Ele nem consegue”.

Agência- O número jovens que não estudam e nem trabalham na Rocinha (2.907, segundo o IBGE), na sua opinião, condiz com a realidade?

Vitória -Acho que tem mais, mas se fosse somar adolescentes e jovens daria muito mais. Mais que o dobro. Eu conheço muito jovem “tem-tem”, mas conheço também muito adolescente “tem-tem” que só estudaram até o ensino fundamental.

Agência -Qual seria a sua sugestão de Política Pública para atender esses jovens?

Vitória -Uma coisa muito boa é a Agência, então eu agenciaria todas as favelas do Rio de Janeiro [risos]. Lá na Rocinha a gente discute muito sobre o jovem morador de favela ter potência e ideias, a Agência estimula isso e dá uma chance para essas pessoas. Até no inicio quando entrei para a Agência, eu fiquei pensando “nossa, como essa menina passou na seleção”, mas quando eu vi a ideia dela, eu percebi que ela era muito boa. Um lixo que a gente tem que pular para chegar a algum lugar, vai e se transforma em uma ideia de coleta seletiva. Por isso acho que não adianta só criar escola e não estimular a criatividade do jovem.

Agência – Como o projeto de vocês pretende atender esses jovens?

Vitória – O nosso projeto são oficinas de teatro, música e dança e além das oficinas a gente quer desenvolver outras áreas. Até por isso que o nome do nosso projeto é meio grande, é CSC CriaJovem Rocinha. O CSC é Centro de Socialização e Cultura, por que apesar de na Rocinha ter muitas oficinas, elas não se preocupam em transmitir cultura, são só atividades. A gente pretende atender os “tem-tens” nessas oficinas e no sarau móvel que acontecerá uma vez por mês, assim a gente quer estimular que os “tem-tens” retomem o interesse pela escola. Quem sabe, se a gente for aprovado pela Banca, a gente consiga diminuir esse número na Rocinha.

Agência -O que você acha que é feito hoje em dia que estimula esses jovens a não trabalharem e nem estudarem?

Vitória -Eu não sei ao certo, mas acho que a divulgação influencia muito eles não terem interesse em outras atividades. Eu digo por mim até. Eu era muito de casa, ficava em casa direto. Chegava da escola, fazia o dever de casa e dormia, não fazia nada. Minha irmã mais velha era mais ativa, sempre procurava coisas para fazer, ela me levou para os projetos que eu faço parte hoje. Tem que divulgar na rua, nas praças e não ficar esperando os jovens virem até você. E também tem aquilo, por exemplo, aqui na Rocinha tem muito projeto social, mas tem outros lugares que nem isso tem.

A Agência continua na missão de pensar nos jovens “nem-nem” além dos números exorbitantes do que mostra o IBGE, pensando em ações nas quais os jovens em seus próprios territórios criem soluções para cidade.

 

1 Comentário

  1. […] colegas vejam que interessante matéria com contribuição de jovens protagonistas.  Agradeço a Prof. Carla  pela […]

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *