JOVENS DO CICLO 2021 FALAM SOBRE SUAS VIVÊNCIAS COMO PESSOAS LGBTQIAP+

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JOVENS DO CICLO 2021 FALAM SOBRE SUAS VIVÊNCIAS COMO PESSOAS LGBTQIAP+

Termina hoje o mês do orgulho LGBTQIAP+. A luta segue por todo o ano, mas queremos marcar este espaço, no último dia de junho, com afeto e resistência. Por isso, convidamos 5 jovens da comunidade que participam do Ciclo 2021 da Agência para escreverem sobre suas vivências nos seus territórios.

Veja a seguir:

 

Ashley, moradora do Jacaré

Me chamo Ashley, tenho 28 anos e sou uma pessoa transgênera do território do Jacaré. Estou muito feliz que eu tenha esse espaço para poder dizer um pouco sobre a realidade de uma pessoa trans dentro da comunidade. Não é fácil ser quem você é, você percebe os olhares, as pessoas comentando, e sem contar, que quando saímos na rua, não sabemos se vamos voltar. Tenho bastante orgulho de ser quem eu sou, mas ao mesmo tempo tenho medo do que pode acontecer comigo. Às vezes prefiro me manter calada e um pouco invisível para que as pessoas não me vejam, mas é difícil quando se chama atenção, os olhares sempre estão para gente, seja pela roupa ou pela forma de andar. Espero que esse cenário mude, queremos andar na rua sem ter medo de não voltar para casa. Espero que esse ano e nos próximos anos, o orgulho seja de ir e vir sem que nada aconteça.

 

Lais, moradora de Santa Cruz

Mulher preta, bissexual e periférica. Há alguns anos é assim que me apresento. Sempre faço questão de pontuar esses recortes, porque eles me forjam e fazem parte da representação da minha vivência neste mundo que, a partir da lógica patriarcal, racista e lgbtfóbica, emprega suas táticas constantes de apagamento e invisibilidade da minha corpa e de tantas outras. A letra B não é de biscoito e eu não estou confusa por ser bissexual. Existem diversas maneiras de se relacionar afetiva e sexualmente para além da heterossexualidade. Moradora de Santa Cruz, Zona Oeste do Rio de Janeiro, percebo que as discussões sobre as pautas minoritárias que envolvem gênero e sexualidade são urgentes. A ideia lgbtfóbica de que somos um mal à sociedade mata, assim como as supostas piadas sobre nós. Elas contribuem para a manutenção de um pensamento que exclui e que fere a nossa existência. Nossa juventude periférica é diversa, somos pessoas diversas! Só queremos seguir existindo, vivas e vivos, podendo exercer o direito de amar! Há que se respeitar!

 

Cleiton, morador de Campo Grande

Meu corpo foi educado com a pedagogia das ruas, das praças, das feiras e dos mais velhos. Meu corpo balança e se movimenta por liberdade, aromas, sabores, amores. Eu tenho um sonho de um dia viver numa periferia em que ser LGBT não signifique sofrer violência em todas as esferas dessa palavra. Desde muito novo eu sofri homofobia, em todos os espaços: nas escolas, na rua, na fila da padaria. Quando a gente sofre homofobia na escola ninguém nos defende, nem mesmo os professores. Na rua não é muito diferente, parece que todo mundo é conivente. Somos nós por nós mesmos. O cenário mudou quando eu cresci um pouco, essa pedagogia das ruas, dos viadutos, das praças me ensinou verdadeiramente o que significa resistência e ocupação. A praça da Guilherme em Bangu, os bailes em baixo do viaduto de Realengo, os roles no Largo, as ocupações das praças de Santíssimo (bairro com um dos menores índices de IDH do Rio de Janeiro) me ensinaram a não ficar calado, a respeitar a liberdade que meu corpo exige. Somos resistência em todos os espaços e não vamos parar de ocupar. Sou exemplo na minha comunidade, seja pra geração de LGBTs mais novos, seja para aqueles que ocuparam os bailes comigo. Eu cresci brincando na rua e quem na rua brinca de foguinho, na sala e na vida querem incendiar. Orgulho de ser, existir e resistir. Eu acredito numa educação popular periférica pautada no afeto. Viva a diversidade!

 

Camila, moradora da Pavuna

Ser a primeira mulher bissexual da família com relacionamento assumido, no lugar onde eu cresci, que é uma cidade pequena – cresci em Magé, na Baixada – me remete a muitos traumas. Falar sobre ser uma mulher LGBTQIAP+ sendo mulher preta, periférica, é ainda mais forte, é falar sobre um corpo cheio de marcas, uma mente cheia de traumas. Mas procuro ter cuidado ao falar disso pra não colocar a favela num lugar de marginalização mais uma vez, principalmente porque a favela foi o lugar que me abraçou. Saí de casa com 17 anos, hoje com 21 moro na Pavuna, tenho conquistado coisas, lugares, espaços, tenho visto crescimento da favela, da galera LGBTQIAP+ se fortalecendo pra ocupar esses espaços e isso tem me fortalecido bastante. Eu sinto que diante de todos os anos da minha trajetória, a favela foi o lugar que mais me acolheu, o lugar onde mais me sinto mais à vontade pra ser quem eu sou.

 

Kawan, morador do Cesarão – Santa Cruz

Eu sou um jovem negro da Zona Oeste do Rio de Janeiro, nasci no em Santa Cruz/Cesarão. Ser um jovem LGBT+ é ser resistência no cotidiano, a gente precisa superar todos os obstáculos justamente por optar em ser livre e amar quem nós somos. Ao mesmo tempo, assumimos a responsabilidade de acolher outros jovens que passam pelos mesmos atravessamentos. A responsabilidade vem de maneira emancipada! Sobreviver é ocupar os espaços a partir dos nossos corpos, das nossas falas e do nosso jeito.

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