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ENTREVISTA: SINARA RÚBIA E VERUSKA DELFINO

Veruska Delfino eSinara Rúbia integram a equipe de coordenação da Agência de Redes para Juventude. Elas têm papel fundamental no Geração que Move, sendo responsáveis tanto pela execução do projeto, com a aplicação da metodologia da Agência, quanto pela relação direta com os jovens líderes. Conversamos com elas sobre a trajetória na Agência e sobre o Geração que Move.

Qual a sua relação com a Agência?

Sinara Rúbia: Eu estou na Agência desde 2015. Entrei como mediadora, que é a pessoa que é responsável por aplicar a metodologia da Agência na ponta, na época a equipe tinha quase 50 pessoas, a Agência tinha projeto em uns 7 territórios. Desde então, trabalhei praticamente em todos os ciclos da Agência, não só nesse lugar de mediadora, mas como tutora, produtora local, de território. Joguei em várias pontas da Agência. E agora, faço parte da equipe de coordenação, assistindo Veruska Delfino e Marcus Faustini. Pra mim particularmente, que já vinha da trajetória do trabalho de base, trabalhar na metodologia da Agência é ter a oportunidade de trabalhar na base de uma maneira que realmente funciona. A metodologia da Agência é uma metodologia que qualifica, funciona de maneira muito eficaz e rápida, partindo do princípio que cada jovem tem uma individualidade que traz com ele. Não é um jovem que está com carência de coisas, ele tem potência. A metodologia parte do princípio que esse jovem é um criador, e a partir disso, se desenvolve a partir de uma iniciativa que cria e que tem como objetivo contribuir com aquele território. A Agência atravessa a história da minha vida com essa oportunidade, de transformar algo, de estar com o jovem, de me qualificar profissionalmente e ser uma agente social que contribui com a sociedade a partir da ação prática no território.

Veruska Delfino: Eu comecei na Agência como produtora, produtora de base. Participei da primeira reunião sobre a Agência, em 2010, como projeto com uma metodologia criada a partir de várias experiências que a gente já fez na cidade com público de juventude, pensando muito juventude e periferia. E aí comecei como produtora mas fiz dobradinha de função, então fui produtora mas fui mediadora também, no primeiro ciclo da Agência, em 2011. Fiquei nessa função de produtora e mediadora até 2013/14. Foi um aprendizado incrível de ver como colocar o projeto na prática sem alterar a metodologia, ao mesmo tempo dando conta das questões burocráticas. A coordenação acaba sendo o meio entre a metodologia e a ponta, é o que amarra. Tem que ter um olhar de fora, mesmo estando de dentro. Ao mesmo tempo, a relação muito direta com o Marcus Faustini [criador da Agência], com pensamentos da metodologia, me fez ter consciência das coisas que estava aprendendo como produtora e mediadora. Foi muito importante passar por essas funções antes de coordenar a Agência.

Como está sendo o Geração que Move?

Sinara Rúbia: O mais interessante do GeraMove é poder ver a Agência continuar com o objetivo de trabalho atualizado. A Agência conseguiu mesmo em contexto de pandemia manter suas metas e objetivos, se atualizando e dando conta de uma necessidade imediata e real, e não perdeu a sua meta, que é ajudar esse jovem a se desenvolver e intervir no território. O Geração que Move é a possibilidade de manter esses jovens intervindo no território, de maneira original. É a Agência de novo acreditando que o jovem pode atuar nos problemas da sociedade, sejam eles quais forem, a época que for, o momento que for. Agência conseguiu elaborar um projeto emergencial no contexto da pandemia, dar conta dessa necessidade, e ao mesmo tempo continuar cumprindo essa missão, que é ajudar esses jovens a se desenvolver, criar redes pra esses jovens, habilitar esse jovens, criar liderança. Tudo isso está acontecendo no Geração que Move, esse é o GeraMove, é a Agência de novo conseguindo se adaptar rapidamente sem perder seus objetivos e principalmente cumprindo o papel que se dispõe a fazer.

Veruska Delfino: O Geração que Move, desde que a gente fechou essa parceria com o UNICEF, encarei como um novo desafio. Acho que até o ano passado eu dominava muito os processos de execução da Agência, selecionar equipe, jovens, parcerias locais. Quando chega o GeraMove, é um elemento novo dentro de um projeto que já existe há anos. Entra essa parceria nova, com o UNICEF, que tem esse característica de trabalho com criança e adolescente, e eu já encarei como um desafio, pensei: vou ter que aprender coisas novas, um público novo. Minha experiência no Espírito Santo com o Impulso Jovem foi fundamental, porque fiquei seis meses trabalhando com adolescentes. Acho que o foi perfeito o GeraMove surgir depois do Impulso, porque já vim com a experiência de lá. É diferente a linguagem, tem que ter um vocabulário mais simples, porque esse adolescente muitas vezes está entrando no mundo de projetos sociais pela primeira vez. Grande desafio é transformar essa institucionalidade com os pais dos adolescentes, compreender que é uma outra geração. O que estão pensando, estudando, como é o mundo pra eles, como é a favela pra eles? Então esse foi um desafio, estar perto da linguagem dessa galera. Outro desafio foi como ouvir o desejo e como o GeraMove dialoga com o desejo desses jovens, fazer esse ajuste. Porque é isso, é uma geração que está passando por crise de ansiedade, que teve uma pandemia caindo nos braços muito novinhos. Então é ver como a Agência não perde o seu foco de trabalhar o desenvolvimento deles e impacto no território, mas ao mesmo tempo, dialogando com a vida deles. Porque é isso, às vezes eles nunca pararam pra pensar nisso, nem sempre tiveram contato com projetos sociais, arte, cultura, são adolescentes diversos que têm desejos diversos. Pra muitos é a primeira vez, o primeiro contato, e isso é uma responsabilidade como projeto. Sou uma menina que sou fruto de uma educação que é atravessada por projeto social, e sei como isso foi importante pro meu entendimento da cidade, então isso me ajuda a ver isso pra eles. Construir uma ação humanitária com esses adolescentes fez total diferença. Pra mim nada agora é tão importante quanto estar conectada com essa galera bem mais nova vivendo e vendo a favela.

E a aplicação da metodologia nesse contexto?

Sinara Rúbia: Acho que estamos conseguindo usar a internet, trabalhar online, sem perder o potencial de criação. Porque os estúdios de criação são isso, né. A metodologia da Agência tem isso, os estúdios de criação, e esses encontros online não perderam nada. Por isso que eu falo, a Agência conseguiu se adaptar de maneira muito rápida sem perder a qualidade. O que eu destaco é o ambiente de criação que acontece na metodologia a partir dos estúdios de criação, onde são apresentados dispositivos. Faz parte da metodologia da Agência criar ambientes de criação pros jovens, que são fundamentais pro jovem. É lá que ele recebe as informações, através dos dispositivos, pro jovem botar pra fora e criar. Criar é crucial nessa metodologia. E isso poderia estar comprometido de maneira online, mas não está. Não perder isso é um grande ativo do projeto.

Veruska Delfino: Eu vejo a metodologia se adaptando pra uma urgência que apareceu. Acho que demonstramos uma capacidade de adaptação muito rápida e sem perder o processo formativo em que a Agência sempre se pautou. Então acho que hoje somos uma das poucas organizações que atua na cidade do Rio que não deixou de estar formando lideranças locais, mas ao mesmo tempo, atuando nessa crise que foi uma crise global. Tanto que essas duas frentes – formação de liderança e apoio humanitário – nos guiaram nos últimos 3 meses. A gente em 10 anos nunca fez trabalho de assistência, e quando surge a pandemia a gente vê a responsabilidade de captar, mas não deixamos de contribuir no desenvolvimento desses jovens. Que tipos de ferramentas esse líder comunitário tem que ter? É ele perceber: “não faço isso sozinho, preciso mobilizar voluntários, uma rede local”. Por mais que tenha a Agência, o UNICEF, não dá pra fazer sem ter uma base local, agentes locais envolvidos. Conseguimos adaptar isso pra esse momento. Alguns jovens, se não tivessem a mediação da Agência, não teriam esses recursos. Então acho que a Agência está fazendo esse papel, ligando as duas pontas, quem tem recurso à base. Conseguir mapear 1000 famílias que tenham jovens como participantes financeiros da casa, isso pra mim é um legado muito grande. Às vezes o jovem, o adolescente, ele nem se dá conta de que tem esse peso. Quando a gente diz que o jovem que tem que ser cadastrado e direciona o protagonismo pra esse adolescente/jovem, a gente está dando uma resposta também pra família dele, pra sociedade, pro estado, que tem que ter política pública pra esses jovens. Então acho que conseguimos de janeiro até agora adaptar o projeto pra um momento específico que vivemos, sem perder o embrião da Agência, que é colocar o jovem como protagonista, da vida dele, da casa, do território. O resultado que eu vejo de redes mais antigas da cidade é que se a Agência passar por esses territórios e não voltar, a gente já deixou um legado, um jovem conectado com essa comunidade. É de fato semear coisas, possibilidades.

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