ENEM AGORA É INJUSTIÇA, DIZEM ADOLESCENTES DE PERIFERIAS DO RIO QUE PARTICIPAM DO GERAÇÃO QUE MOVE

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ENEM AGORA É INJUSTIÇA, DIZEM ADOLESCENTES DE PERIFERIAS DO RIO QUE PARTICIPAM DO GERAÇÃO QUE MOVE

Em ano de vestibular, Kaylane Bernardo tenta acompanhar aula online

Kaylane Bernardo, umas das adolescentes que lidera o projeto Geração que Move*, quer ser engenheira química. Além do interesse pela área, enxerga na profissão múltiplas possibilidades de emprego. Da casa onde nasceu e cresceu, no conjunto João XXIII, em Santa Cruz, a adolescente tem estudado à distância, do jeito que pode. Quando as aulas presenciais foram suspensas, Kaylane, sua mãe, e o irmão de doze anos foram pegos de surpresa, sem rede wifi em casa.  A solução encontrada pela jovem de dezesseis anos para não interromper os estudos em ano de vestibular foi acompanhar as aulas pelo celular, usando dados móveis. “Eu tenho computador, só que até o começo dessa semana ele estava sem acesso à internet, então agora estou me adaptando a ele – o que é complicado, porque é muito velho”, conta Kaylane.

Ela divide o tempo e a internet em casa entre a escola da rede pública estadual e o cursinho de pré-vestibular social Santa Cruz Universitário. Durante a pandemia, 89,5% dos inscritos participam das aulas usando o celular. A coordenadora Mariana Xavier, que já foi mediadora da Agência de Redes para Juventude, explica que há uma disparidade entre o acesso de seus alunos e o de alunos de escolas com mensalidades altas: “Eles [alunos do Santa Cruz Universitário] não têm acesso à internet, e os que têm, têm um acesso muito precário. Eles não têm como pagar, assinar plataformas caras de cursinho. E mesmo que conseguissem a assinatura, não têm internet boa o suficiente para rodar um vídeo”. Pensando nessas dificuldades, os professores buscam acrescentar às aulas ao vivo um conteúdo pensado especificamente para o Whatsapp, em arquivos leves, que possam ser baixados com maior facilidade. “Tentamos fazer com que eles absorvam algum conteúdo na medida do possível, mas sabemos que alguns alunos não conseguem acompanhar”, diz a coordenadora.

Nesse universo, Barbara Barros, adolescente que integra o time do Geração que Move representando a Vila Kennedy, se sente privilegiada. Apesar de enfrentar dificuldades financeiras, a jovem conseguiu acessar oportunidades ao longo da adolescência que acrescentaram na sua formação, como experiências no Japão e no Equador. Mais tarde, passou para a UFRRJ, onde cursa Administração Pública. Por saber que sua trajetória é exceção, e não a regra, Barbara acredita que o debate sobre a democratização do acesso à educação seja urgente – mais ainda nesse momento. Ela sabe que muitos estudantes compartilham hoje das mesmas dificuldades de Kaylane, e por isso, acha que o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) deveria ser adiado: “Não é uma competição justa, em condições normais já é injusto. Com a pandemia, isso fica ainda mais realçado”, diz.

Ainda não se sabe como estará o Brasil em novembro, para quando Enem está previsto. O que se sabe é que a experiência de Kaylane é a realidade de muitos estudantes de favelas e periferias do Brasil. São jovens que, com pouco ou nenhum acesso a ferramentas básicas para a manutenção dos estudos durante a pandemia, se veem prejudicados. “Eu acho bem injusto o Enem não ser adiado. Não ter esse acesso agora significa não ter acesso à educação”, opina Kaylane. Se conquistar a vaga dos sonhos, a filha da manicure que parou de estudar no Ensino Médio será a primeira da família a ingressar na universidade. Mas, no caminho dela e de outros estudantes de territórios de periferia, há muitos percalços. Sua mãe uniu esforços e conseguiu diminuir um deles, pagando pela rede de internet sem fio. Mas como farão outros estudantes, cujas mães precisam reservar o dinheiro para a comida?

*O projeto Geração que Move é uma iniciativa do UNICEF em parceria com Fundação Abertis e Arteris e realizado pela Agência de Redes para Juventude na cidade do Rio. A equipe da Agência atua com dez duplas de jovens e adolescentes de favelas e periferias, em duas frentes: produção de conteúdo com informações seguras e mobilização social em seus territórios, com a entrega de cestas básicas e livros. No Rio, o projeto tem apoio do Instituto Unibanco e do People’s Palace Projects.

 

Por Yael Berman

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