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Direto da Agência » 23.09.2015 - Carolina Lourenço – Conexões e Comunicação

Destrinchando ideias com o alfabeto

No final dos anos 1980, o filósofo francês Gilles Deleuze deu uma entrevista em que explicava o seu pensamento e obra em forma de abecedário. Na entrevista, gravada em vídeo e ainda disponível na internet, Deleuze explorou conceitos através de palavras simples como “Animal”, “Desejo” e “Professor”.

A Agência de Redes para Juventude também usou esse mecanismo para criar seu próprio abcdário. “E” de “experimentação”, “I” de “ideia”, “M” de “metodologia”, e “P” de “projeto” são alguns dos termos usados de forma recorrente nas formações dos universitários e mediadores, nos Ciclos de Estímulos e nos grupos de estudos, e fazem parte de um dicionário próprio que ajuda a direcionar toda a equipe.

A fim de promover uma nova forma de articulação dos conteúdos já existentes, os bolsistas são incentivados a construírem seu próprio alfabeto. Ou seja, questões anteriormente abordadas na confecção das Bússolas, Inventários e Mapas são agora expressas de uma maneira diferente, estimulando a criatividade e enfatizando a relação com os próprios elementos descritos. O último sábado (19) foi dia dos jovens trabalharem palavras e frases relacionadas às ideias dos seus projetos a partir das letras do alfabeto.

Harmonia na CDD: abcdário de um estúdio de gravação

Além de apresentar referências como o “Abcdário da Xuxa” e o vídeo da “Gaiola das Cabeçudas”, a equipe da Cidade de Deus usou chaves, ou dispositivos, que podem ser respostas para as perguntas “Qual o resultado esperado pelo jovem com o projeto? ”, “O que ele quer que as pessoas sintam com o projeto?”, ou mesmo “O que o jovem quer que mude na vida dele com o projeto? ”.

Jean Claude, morador da Cidade de Deus, quer montar um estúdio de gravação na favela para novos artistas.

Jean Claude, 25 anos, é bolsista do território e contou que dividiu seu abcdário em três partes. Na primeira delas, abordou assuntos relativos ao planejamento do projeto, como a organização, o orçamento e as parcerias. Na segunda, também foram usados tópicos parecidos, mas considerando a etapa da construção da ideia. Finalmente, a terceira destinou-se à manutenção do projeto, o que, segundo ele, é a mais importante, pois foca a divulgação, futuros trabalhos, possibilidade de renda e expansão.

Recém mudado de Niterói com a mãe e a irmã, que também participa da Agência, Jean compõe canções e estuda audiovisual no CRJ (Centro de Referência da Juventude). Com o objetivo de “expressar e demonstrar algumas percepções subjetivas”, seu desejo é montar um estúdio para gravar vídeos e músicas dos artistas da comunidade que estão iniciando na carreira.

“Quero fazer esse projeto, pois creio que posso contribuir para a mentalidade das pessoas, mostrando uma outra visão de mundo e de si mesmo”. Para ele, é importante enfatizar que nem tudo o que é bom vem de fora. Jean pensa que a proximidade do estúdio fará com que os moradores da comunidade queiram contribuir.

“Customização do estúdio”, “Harmonia musical”, “Linguagem digital, profissional e técnica”, “União da vontade, planejamento e ação”, “Web para divulgação” foram algumas sentenças usadas na sua lista. O processo contribuiu para que o rapaz tivesse uma imagem mais realista de tudo o que implica um projeto. “O abecedário organiza o ambiente, flui melhor, descongestiona as ideias”, concluiu.

Rocinha: ideias tomam forma com abcdário

Para integrar e começar a tarde, a equipe Rocinha realizou um jogo de afinidades, perguntando “Quem está de camisa azul?” e “Quem tem irmão ou irmã mais nova?”, e juntando em grupos pessoas com características em comum. Além dessa atividade, também rolou a Adedanha do Território: com a letra sorteada, todos deveriam dizer algo relacionado ao seu território e à categoria da vez.

Na categoria “Seu projeto” – sobre os desejos – com a letra “J”, surgiram as expressões “Jardim artificial de flores coloridas” e “Jovens em danças pelas ruas”. A primeira faz parte da concepção da ideia do Yagho Henrique, de 18 anos, morador da Roupa Suja. É a ilustração de cenários para paradas gays. Já a segunda é de Douglas Souza, 24 anos, morador da Dionéia, que pretende criar uma escola – e oficina – de dança na comunidade com o estilo break e seus variantes. A dança “mudaria alguns conceitos das pessoas, assim como o desenvolvimento do ser humano. Seria mais uma oportunidade para o aprendizado de dança a baixo custo”, comenta Douglas. Na letra “d” de seu abcdário, Douglas definiu “Diversidade de Estilos de Dança” para sua futura oficina.

Variadas formas de locução

Ynaê Silva, de 17 anos, moradora da Rua 1, que fechou parceria com Jaqueline Martins, de 15 anos e Mayara Lima, de 16 anos, também procurou imprimir os atributos do seu “Cine Cinema” – não só um cinema, mas um lugar de encontro e oficinas de arte, cinema, teatro, fotografia, entre outros. “Ânimo para que o projeto dê certo e seja bem divertido”, com a letra “A”, significa a premissa inicial para sua realização, e “L” de “Lan Houses, parcerias para o cinema”, direciona possibilidades para futuros fechamentos. “Por aqui existem muitas Lan Houses, de repente a gente pode usá-las”, explica Ynaê.

Inaê Silva, de 17 anos, explicando o Cine Cinema

De letra em letra o jovem concretiza o desejo. São 26 tipos com variadas formas de locução para gerar mais caminhos a serem explorados durante o desenrolar das ideias. “G” de grafite que questiona, “C” de cinema na favela, “D” de dança nas ruas, “O” de orçamento para organização do projeto, “P” de pesquisas sobre os antepassados da Rocinha, “I” de instrumentos musicais para intervenções… que tal formar um novo alfabeto?