De Santa Cruz a Ipanema: o jovem é sujeito desejante

João XXIII no ritmo do Funk e do passinho
4 de setembro de 2015
De Santa Cruz a Ipanema: novas leituras da cidade
11 de setembro de 2015
Exibir Tudo

De Santa Cruz a Ipanema: o jovem é sujeito desejante

Por Carolina Lourenço, Jeandson Moreno, Juliana Sá e Matheus Trindade

Neste último sábado, nos estúdios de criação realizados nos núcleos da Agência de Redes para Juventude, os jovens bolsistas construíram o primeiro objeto plástico de sua futura ação no território: a bússola. Para a metodologia, os instrumentos são uma forma de permitir ao jovem expressar elementos sobre sua ação logo no início. Dessa maneira, os elementos que o mercado de criação de projetos exige, como missão, visão, objetivos e outros são incorporados ao repertório dos jovens de uma maneira mais democrática.

A história da invenção da bússola é repleta de mistérios, mas há relatos e estudos que apontam sua origem na China. Inicialmente, era usada como oráculo – uma divindade religiosa – auxiliando na tomada de decisões e na concretização de profecias. Muito tempo depois é que se tornou o principal instrumento utilizado para a orientação geográfica.  A bússola pode ser usada em navios, aeronaves, ou até mesmo por praticantes de trilhas. Atualmente, quase todos os equipamentos de alta tecnologia neste sentido, como o GPS, são feitos com sua base teórica.

Mesclando esses dois sentidos – de amuleto e de direção – a Agência reopera a bússola adicionando às direções Norte, Sul, Leste e Oeste os conceitos Ideia, Desejo, Forma e Território. É o primeiro instrumento  plástico capaz de relacionar a memória afetiva do jovem com o esqueleto do seu futuro projeto, e que servirá de guia até o final do Ciclo de Estímulos.

O desejo é base para todo o caminho do jovem na cidade e na passagem dele pela Agência. Para efetivar uma nova relação com o jovem de origem popular, colocando-o na perspectiva de criador e não de aluno, é preciso trabalhar a partir do seu desejo. Segundo o Dicionário da Agência, o desejo “remete com mais ênfase ao que alguém quer fazer, ter, criar, desenvolver e projetar. Porque um desejo é um convite à ação e é ele que mantém o jovem na Agência”. Recolhemos aqui algumas percepções sobre desejo identificadas nas bússolas dos bolsistas de três núcleos diferentes.

Bússola de Kimberly

Um desejo pode apontar várias direções. E qual delas escolher? Norte, sul, leste e oeste? Seja qual for a direção que as coordenadas apontarem, uma das coisas mais importantes é aquela que não deixa o desejo fraquejar. “A gente tem que tirar esse pensamento das crianças de que não podemos sonhar grande quando se é pobre”, afirma Kimberly Duarte, 15 anos, da Rocinha.

Tanto para Beatriz Stephannie, 17 anos, quanto para Evelyn Dias, 15, dos núcleos João XXIII e Veridiana, respectivamente, a expressão de um desejo é uma certa novidade. “Eu estava acostumada a escrever redações com temas que os professores indicam na escola, escrever lista de supermercado pra minha mãe, mas nunca tinha escrito sobre os meus desejos, sobre o que eu quero pra minha vida”, conta Evelyn. “Foi importante a produção da bússola porque eu nunca tive a vontade de falar dessas coisas assim, desse jeito, mas quando eu vi todo mundo fazendo eu fiz. Que nem o teatro. Antes ninguém sabia que eu gostava, agora todo mundo sabe. Eu nunca tinha falado pra ninguém que gostava de teatro, nem minha mãe sabia”, conta Beatriz.

Para Adany Lima, coordenador do Movimentos na Cidade de Deus – um dos projetos integrantes da Rede Agência -, um dos grandes diferenciais da Agência é o poder de trazer o desejo para realidade. “Quando eu participei da aula inaugural das turmas desse ciclo, a galera ainda não tinha noção do que estava participando. Achavam que era só mais um curso, mas é algo muito mais pessoal. Eu conversei com um rapaz e  ele ficou deslumbrado. Falei pra ele que ele pode fazer alguma coisa para ajudar os outros e a si mesmo. Ele  achava que a Agência era só um curso pra aprender a fazer projeto. Essa experiência é muito diferente. Esses jovens nunca tiveram a chance de falar de seus desejos de maneira simples”, conta Adany.

Música e dança: Bonde dos desejantes

Para desenvolver o projeto de dança na Cidade de Deus no ciclo 2012, Adany alimentou seu desejo a partir de diversas experiências. “Eu colocava um rádio na rua e juntava meus colegas. A gente pagava mais mico do que dançava”, conta o bailarino, que conviveu muito com seus tios – dançarinos do movimento break – e que na adolescência tinha Michael Jackson como referência.

Quem já junta uma galera a partir de um desejo é Alessandro Cabral, 17 anos, no Batan. “Os meus amigos querem muito aprender a tocar bateria ou violão”, conta Alessandro Cabral, de 17 anos. Ele quer aprender a tocar bateria e conseguir criar uma escola de música no Batan. Seu desejo vem dos encontros com o primo baterista de uma igreja em Macaé e do som da banda gospel Fruto Sagrado.

Alessandro já começou caprichando nos traços da sua bússola (habilidade também demonstrada com a versão personalizada da sua blusa da Agência).

“Eu vejo muitas pessoas aqui que querem aprender a tocar instrumentos, mas não tem um lugar para isso”. Ele, que já vem procurando alternativas para tocar bateria, conta que para ter os primeiros contatos com os instrumentos no território é preciso ir a uma igreja observar ou participar de uma escola de música. A mais próxima do Batan ainda fica distante e cobra um valor superior ao que muitos jovens podem pagar.

Com essa percepção, Alessandro criou a bússola e pensou nas direções que vão nortear sua trajetória para realizar esta ideia. O desejo logo apontou o norte; o sul direcionou a ideia da escola de música; o leste juntou as formas e possibilidades descobertas por suas andanças à procura de como aprender e, como ele não está desejando só, o oeste só podia apontar para o seu bonde e o Batan como local de realização.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *