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De Santa Cruz a Ipanema: novas leituras da cidade

Por Carolina Lourenço e Jeandson Moreno

Neste último sábado, nos estúdios de criação realizados nos núcleos da Agência de Rede para Juventude, os jovens bolsistas construíram o primeiro objeto plástico de sua futura ação no território: a bússola. Para a metodologia os instrumentos são uma forma de permitir ao jovem expressar elementos sobre sua ação logo no início. Dessa maneira, os elementos que o mercado de criação de projetos exige, como missão, visão, objetivos e outros são incorporados ao repertório dos jovens de uma maneira mais democrática.

A história da invenção da bússola é repleta de mistérios, mas há relatos e estudos que apontam sua origem na China. Inicialmente, era usada como oráculo – uma divindade religiosa – auxiliando na tomada de decisões e na concretização de profecias. Muito tempo depois é que se tornou o principal instrumento utilizado para a orientação geográfica.  A bússola pode ser usada em navios, aeronaves, ou até mesmo por praticantes de trilhas. Atualmente, quase todos os equipamentos de alta tecnologia neste sentido, como o GPS, são feitos com sua base teórica.

Mesclando os dois sentidos – de amuleto e de direção – a Agência reopera a bússola adicionando às direções Norte, Sul, Leste e Oeste os conceitos Ideia, Desejo, Forma e Território. É o primeiro instrumento  plástico capaz de relacionar a memória afetiva do jovem com o esqueleto do seu futuro projeto, e que servirá de guia até o final do Ciclo de Estímulos.

O jovem já começa a elaborar uma ideia, pelo menos, a partir das entrevistas do processo seletivo da Agência. Ter uma ideia não é uma obrigação. Mas começar a desmistificar o pensar (não só quando existe um problema) e criar o prazer de pesquisar para pensar invenções é uma das missões da Agência. “O jovem pensa, e uma das metas da Agência é difundir a prática de gostar de ter ideias”. Essa é uma das definições para o conceito ideia no Dicionário Agência. Durante a produção da bússola, dois bolsistas apresentaram ideias e formas diferentes para expressar seu desejo por livros.

Buscando a inclusão

Simone Souza, 23 anos, que desenvolver uma biblioteca para pessoas com necessidades especiais.

Simone Souza, 23 anos, é uma das bolsistas da turma da manhã do núcleo CDD, que acontece na ASVI (Associação Semente da Vida da Cidade de Deus). No primeiro ano em que participou da Agência, em 2011, chegou até a banca com o projeto “Balé Popular”, que oferecia aulas à crianças e jovens entre 07 e 15 anos, sendo 25% das vagas para pessoas especiais.

Nascida em Ibirataia, uma pequena cidade da Bahia, ela veio ao Rio a cerca de 13 anos atrás, com a família que buscava por melhores oportunidades de emprego. Moradora do Karatê e convicta de se tornar psicóloga, Simone contou que adora interagir com todo tipo de gente. “Eu gosto de prestar atenção nas pessoas, nos gestos, no modo de falar, nos olhares, acho interessante estudar a mente delas”. De acordo com ela, o motivo que a fez retornar é “estar em contato com pessoas que querem mudar o lugar onde vivem”.

Simone enfatizou que ainda é baixa a integração de pessoas portadoras de deficiência no meio social e educacional. Sendo assim, seu objetivo é criar uma biblioteca móvel e inclusiva, promovendo a troca de livros, a leitura para cegos e a mobilidade dentro do território. “Eu acho que a leitura muda muito a sua mente, ela te desvia, te leva a lugares onde você nunca imaginou ir”, contou, além de ressaltar que se sente mais madura e que a bússola a ajudou na divisão do projeto.

Integrando novos repertórios

No núcleo Centro, na sede da Agência de Redes para a Juventude, num canto concentrada na sua produção de sua bússola, estava Caroline Oliveira, de 21 anos, moradora do Morro dos Mineiros, Complexo do Alemão. Como norte: a sua paixão por livros e o desejo da disseminação desse prazer entre as crianças. Com 14 anos, Agatha Christie foi sua primeira paixão literária, e depois disso, sempre que possível fazia empréstimo de livros na sua escola. No entanto, por ter deixado a escola, sem acesso à bibliotecas formais em sua localidade e pelos altos preços de livros, montou uma mini-estante em frente à porta de sua casa, a partir de doações do Facebook. Hoje, em frente à estante e instigados pelas obras, jovens dedicam um tempo para checar as novidades.

Livros no Complexo do Alemão

Para Guilherme Vinícius, criador  da Livreteria Popular Juraci Nascimento no ciclo 2014 da Agência, vê com entusiasmo esse envolvimento da juventude de periferia com a literatura. “O maior exemplo é a Bienal do Livro em que o público, a maior parte é de jovens. É isso que está acontecendo. Espero que não seja algo momentâneo”, conta o jovem que no ensino fundamental se apaixonou pelo livro Capitães da Areia, de Jorge Amado e criou uma biblioteca num triciclo que cruza toda região do Zindo, no morro de São Carlos.

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