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Direto da Agência » 09.04.2016 - Ana Clara Branco - Conexões e Comunicação

“BATAN NÃO. ME DEIXA NO POSTO TEXACO”

Aline, entre Cassiane e Rowena, apresentando o Notas Viajantes para a comunidade, no Sábado de Seminário no Território.

Aline, entre Cassiane e Rowena, apresentando o Notas Viajantes para a comunidade, no Sábado de Seminário no Território.

Aline Copelli da Silva tem 26 anos e é moradora do Batan, comunidade da Zona Oeste do Rio de Janeiro. A vista da sua casa dá para a Praça José Mauro Vasconcellos, principal ponto de lazer para crianças. Outro destaque do local é a pedra enorme que oferece uma visão panorâmica da praça, das ruas próximas e do campo de futebol. Esse mesmo campo recebe os boleiros (e a alegria) de toda a favela, de uma vizinhança que se conhece por frases como “te carreguei no colo quando era bebê, viu?”.

Ainda que a comunidade emanasse potência e fosse um território de ideias realizáveis, oferecendo possibilidades de ações e parcerias, Aline não as reconhecia. Ela cita que se enquadrava no perfil de jovem que quer sair da comunidade. E confirma: “tinha pavor quando alguém dizia que eu morava no Batan. Não suportava ouvir o nome ‘Batan’. Eu morava em Realengo. E na van, descia no Posto Texaco de Realengo”. O posto, assim como a igreja, são os dois únicos pontos de van reconhecidos como pertencentes à favela do Batan.

A peleja do próprio imaginário

Aline entrou para a Agência de Redes Para Juventude no Ciclo de Estímulos de 2015, motivada pelo seguinte acontecimento: uma moradora do Batan, passando fome, com os dois filhos desempregados, apareceu na porta de sua casa pedindo ajuda. A jovem além de ter ajudado, pediu currículo dos dois meninos, e se prontificou a enviá-los para lugares em que eles poderiam ter uma oportunidade. Daí, surgiu o esboço do Emprega Batan, projeto idealizado como um agenciador de jovens para empregos, incentivando também o empreendedorismo, junto a outros 3 integrantes.

“No início da Agência, eu ainda não me orgulhava de ser moradora do Batan, e eu até brincava dizendo que estava sendo hipócrita de estar na Agência”, ela afirma. No decorrer do ciclo e ao desenvolver a ideia, isso mudou. Instrumento a instrumento, a rejeição foi sendo confrontada e assim, o afeto pelo território surgiu. “Acho que a Agência me mostrou o quanto somos capazes de sermos protagonistas, e esse protagonismo me despertou”, ela completou.

Aline Copelli da Silva, 26 anos, moradora do Batan e integrante do projeto Notas Viajantes.

A identificação da potência

A história do Batan é rica em detalhes, poesia e afeto. E a descoberta desse fato veio, para Aline, no desenvolvimento do projeto que possui hoje dentro da Agência: o Notas Viajantes, cuja finalidade é um documentário musical que disputa o imaginário da favela na cidade. “Conhecer mais a história do meu território e ver quem são as pessoas que moram aqui, e o que elas trouxeram, me emocionou bastante. Acho que faltava para mim mais conhecimento sobre tudo isso”, ela conta.

Aline, como outros dois integrantes do Notas Viajantes, é musicista. Quando o Emprega Batan não passou na Banca do Ciclo de Estímulos, logo foi convidada para somar a esse outro projeto, e trazer suas habilidades de articulação e mobilização. Ela decolou. Participou das pesquisas referentes à história do território, conversou com moradores, construiu o roteiro do filme junto com os outros integrantes. Buscou entender o que significava o próprio Batan, e reconhecer, com outro olhar, sua potência.

A definição de um marco

No momento de apresentar o projeto para a comunidade, no sábado de Seminário das Comunidades no território,  Aline conseguiu abandonar a timidez para falar na frente de pais, familiares e agentes locais. Se colocou quanto criadora e gestora de projetos, e também como sujeito de afetividades com o lugar onde vive. Queria ali fazer diferente. “Se as pessoas soubessem o quanto a metodologia transformou minha vida, eles saberiam por que eu falei com tanto amor sobre meu território no sábado”, declarou a jovem.