#AgênciaMundo: Descolando na França

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A Agência de Redes para Juventude está viajando o mundo! Diversos representantes da Agência vão embarcar em várias missões em mais de quatro países para mostrar a metodologia e as invenções dessa juventude carioca. O primeiro semestre dessa Rede Agência está frenético de trocas e criações.

Em março, Elaine Rosa (Feira Crespa) estreou essa série de viagens indo para Tunísia representando a Agência e seu projeto no Fórum Social Mundial. E abril já viu Veruska Delfino decolar para os Estados Unidos para o intercâmbio Internacional Visitor Leadership Program, realizado em parceria com o Consulado Geral dos Estados Unidos-RJ e Ana Paula Lisboa, Ronaldo Marinho e Marcus Faustini para o Strive Festival no Southbank Centre e uma visita à experiência inglesa da Agência (The Agency).

A próxima viagem será a d’Os Descolados, grupo de dança funk criado no Fumacê, para o Festival Rencontres Itinerantes & Résidents na França. O evento é especializado em juntar artistas de rua que estão de passagem por Paris. Além disso, na programação ainda tem uma série de apresentações em casas de show parisienses e a gravação de dois videoclipes.

O grupo Carta na Manga, duo de rap formado por Mau Du Carta e MG fundado em 2009, também embarca nessa viagem. Os dois grupos fazem parte do coletivo Mondé Produções e realizam juntos o show 365 Descolando, que mistura no nome títulos dos trabalhos dos grupos. O recurso para a viagem veio através do Edital Conexão Cultura Brasil Intercâmbio, do Ministério da Cultura. Esse programa oferece recursos financeiros para que artistas possam apresentar seu trabalho no exterior ou fazer formações na área em que atuam.

Confira o clipe Sandália, do Carta na Manga.

 

Essa viagem, mais do que a empolgação pela descoberta de um novo país, coloca o Fumacê novamente próximo a novos significados, de um Rio de Janeiro popular e mais potente. Segundo Os Descolados, uma de suas maiores realizações foi ter colocado a comunidade no jornal com uma notícia positiva. “Essa viagem para nós é uma vitória pra gente poder mostrar não só para o Fumacê, mas pra todo jovem de favela que ele pode fazer algo, sair do pais, se formar, rodar a cidade e fazer o que mais gosta”, conta Felipe Salsa, um dos integrantes do grupo.

Espanha-Agência-Fumacê: os afetos levam além 

Os Descolados foi um desdobramento do Mosaico, projeto desenvolvido no núcleo Batan de 2012. Criado por Fernando Cook, Rowena Valença e Allex Lobato o projeto criou um espaço para que grupos de dança das favelas do Batan e Fumacê pudessem ensaiar no CIEP Thomas Jefferson. Lá também rolou aulas de break e passinho para os estudantes da escola.

Os Descolados foi resultado desse espaço (quem lançou também o grupo Time X) e de outros fluxos dos meninos pela cidade. Nesses quase três anos de atividades, foram mais de 90 shows em diversas parte do Rio, como no Circo Voador, na Feira de Arte Urbana (FAU 021), Rio Parada Funk e em festas como TropikAll Vibez. Além de clipes realizados com a Caboco Filmes (projeto que também passou pela experiência da Agência) e com As Desejadas. Conheça mais a história desses caras que vão levar um pouco da sagacidade desse novo carioca para terras francesas.

 

Da esquerda para direita: Anderson Kipula, Fernando Cock e Felipe Salsa. Foto: Viviane Laprovita

Felipe Salsa tem 24 anos e divide sua rotina entre os show e ensaios do grupo; o trabalho numa empresa de manutenção de equipamentos de cozinha (na qual também trabalham Fernando e Anderson) e ensaios coletivos com crianças e jovens do Fumacê.

Antes da dança, Felipe foi jogador de futebol e quase entrou no quadro de jogadores de um grande clube carioca. “Já fui ajudante de pedreiro, auxiliar de pintor, depois fui promovido a pintor  e fui frentista durante 6 meses”, conta Felipe que largou tudo isso para apostar na vida de Descolado. A dança chegou na vida dele em 2006 quando ele dançava de brincadeira na rua com os amigos. A primeira apresentação foi numa festa de 15 anos com o Grupo Dom Ramon – nome inspirado no ator que eternizou o Seu Madruga, no seriado Chaves.

“Toda família de comunidade pensa que seu principal objetivo deve ser ter carteira assinada, ser um cidadão de bem, pai de família, mas trabalhando. E as poucas coisas que você pode usufruir dentro da comunidade são festas e eu não tinha como pretensão curtir coisas fora da comunidade. No entanto, eu trabalhava, era trabalho casa. Se eu saísse, era muito raro. No posto de gasolina, era de segunda a segunda, e uma folga na semana e um domingo no  mês, então era quase impossível eu sair, porque era assim: ‘amanhã tô de folga, mas vou descansar porque dia seguinte tem trabalho’. Como surgiu Os Descolados, eu quebrei essa rotina e passei a ver mais minha mãe, ficar mais tempo com a minha avó, eu posso contar pra minha avó como foi o show, ela gosta de saber e me apoia”.

“Comecei a faltar os treinos de futebol pra ir treinar break” – Fernando Cook

O futebol também foi a primeira carreira que Fernando Cock, 22 anos, ensaiou construir. Foram oito anos nesse trabalho e dois países: Brasil e Espanha, onde foi morar com a mãe aos 10 anos. Aos 16, ele conheceu o hip hop através de um programa de televisão Bailar e a paixão foi quase imediata. Esse tempo por lá rendeu a ele o apelido Espanhol e a sagacidade de rimar tanto em português quanto na língua espanhola.

No mesmo ano, ele criou o Mentes Falsas Crew, largou de vez o futebol e viajou até Portugal de roda em roda de freestyle. Aos 18 anos, Fernando voltou para o Brasil para dar continuidade aos estudos. “Eu já tinha até meio que desistido dessa parada da música e do break, da dança, já tava pensando em estudar, já tava trabalhando, querendo assinar a carteira. Aí eu falei pra minha mãe ‘já que eu vou desistir do meu sonho pra estudar e realizar seu sonho só vou querer  fazer uma parada, pra eu não surtar também: os sábados são pra mim'”.

E assim Fernando começou a fazer o curso de teatro da Arena Jovelina Pérola Negra, em que Marcus Faustini (criador da Agência) e Anderson Barnabé (gestor da Arena) eram professores. Muito perrengues depois, Fernando ingressou no terceiro ciclo do núcleo Batan da Agência e foi um dos criadores do Mosaico, projeto que originaria Os Descolados alguns meses depois.

“O nosso crime organizado é a dança e a música como ataque. O tráfico em transição são as redes que a gente faz com os outros projetos, parcerias com artistas, comércios e marcas de roupas. Na favela, nossa facção é a Agência” – Anderson Kipula.

Anderson Nascimento (22 anos), o Kipula, adotou o Fumacê após ser conquistado por Fernando Cock, quando eram dançarinos no grupo TShugos Crews. Nascido e criado no Morro do Urubu (próximo aos bairros Pilares e Thomaz Coelho) ele começou a dançar jazz na ONG Talentos da Vez, onde experimentou também ginástica olímpica e circo. Lá ele tomou contato com o break e e tornou-se um bboy. “A ideia da TShugos era unir os Bboys da zona norte. Na minha área existiam Bboys jovens bons e com uma certa experiência que aos poucos fomos nos conhecendo fora da nossa área e descobrimos que tínhamos isso em comum: o local de residência”, conta Anderson, que tanto na grafia do nome do grupo quanto na ideia de juntar a galera do território já faziam dele um Descolado.

A ida dessa galera mostra o quanto a formação de redes variadas é importante para a juventude popular. Para além de uma experiência individual, essas viagens estabelecem novas conexões e possibilidades de cooperação para a diminuição dos problemas da juventude através da liderança e criação desses jovens. Os Descolados vão dar um rolê em Paris, mas em breve estarão de volta ao Rio de Janeiro. Até lá, ouça o EP Descolando e curta a página do grupo >> http://goo.gl/4EMQY3.

E a nova versão de Vai, o primeiro hit dos caras:

 

 

 

 

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