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A REALIDADE DE JOVENS MOTOTAXISTAS DURANTE A PANDEMIA NO RIO

“Minha meta é começar às sete da manhã”, diz Thalles Fernandes sobre a nova rotina no ponto de mototáxi. Morador da Pavuna, ele é mais um jovem que se expõe na luta pela sobrevivência durante a pandemia. Com álcool em gel no bolso e máscara no rosto, sai para uma jornada que tem se estendido até as sete da noite. “Tenho trabalhado mais horas e ganhado bem menos do que antes, um terço do que costumava ganhar”, diz Thalles. Ele explica que ganha dinheiro com corridas para longe e com pessoas que estão atrasadas. “Como todo mundo está cortando gastos, corridas de vinte reais, pra Rocha Miranda ou Irajá, por exemplo, já não rolam mais. Corridas de cinquenta reais, para bairros como o Centro ou Tijuca, são ainda mais raras”, relata.

O mototaxista divide as corridas com a música, profissão que nutre há mais de dez anos. Mas é da moto que vem o sustento. Contudo, mesmo com as longas jornadas de trabalho, faltou dinheiro para pagar as contas no último mês. Thalles pediu e recebeu o auxílio emergencial, que ajudou a diminuir esse impacto. “Até eu conseguir me adaptar, passei necessidade, foi bem difícil. Eliminei meu lazer, agora o foco é nas obrigações – pagar as contas, a manutenção da moto e garantir a minha sobrevivência”, conta.

Ele recebeu uma cesta básica como parte das doações do projeto Geração que Move, iniciativa do UNICEF em parceria com Fundação Abertis e Arteris, realizado pela Agência de Redes para Juventude na cidade do Rio. A relação de Thalles com a Agência começou há quatro anos. Ele participou do ciclo 2016, de formação de realizadores, e com o seu grupo, criou uma feira artística e comercial. Agora, Thalles coloca em prática os aprendizados que tirou da experiência. Ele está ajudando a mapear vinte jovens mototaxistas do seu ponto, que também serão beneficiados com cestas básicas e livros, graças ao apoio do Instituto Unibanco.

O criador da Agência de Redes para Juventude Marcus Faustini aponta para a necessidade de enxergar o grupo a que Thalles pertence. “A profissão de mototaxista é uma das grandes identidades das favelas e periferias do Rio de Janeiro, uma identidade de trabalho inventada por jovens. É preciso olhar com muita atenção para os jovens que trabalham nessa atividade, para que possam se proteger e receber apoio”, ressalta Marcus. Mesmo muitas vezes sendo subestimado, de acordo com uma “figura social que não dá para reverter”, como diz Thalles, ele sabe da importância de seu trabalho. Mais exposto à contaminação e mais vulnerável socialmente, o jovem mototaxista segue trabalhando, dia a dia, para aqueles que não podem ficar em casa.

 

Por Yael Berman

3 Comentários

  1. Leandro Santanna disse:

    Sempre me atravessam totalmente as histórias dos artistas periféricos que precisam ter um 2º emprego pra sobreviver, pois a arte é para os “bem nascidos” … Sobretudo neste momento…
    Um Salve para o Thalles, e VIVA a Agência de Redes para a Juventude!!!

  2. Marcelo Índio disse:

    Bela matéria, retrata muito a falta de “oportunidades” que os jovens das periferias têm em comum no dia-a-dia , a ótica dos Governos de não abrir um paradigma de sustentabilidade em todos os setores da economia. Formar profissionais ao invés de deixá-los na informalidade. O subdesenvolvimento persiste, caminhamos em passos curtos para uma economia auto-sustentável. Talvez por falta de ousadia? Talvez por ignorância? Ou talvez por um sistema político corroído por divisão de valores. A esperança na mudança talvez seja a persistência desses jovens que lutam sem apoio ou que surjam essas oportunidades de verdade em todos os âmbitos da profissão.

  3. Ilana Strozenberg disse:

    É muito importante dar visibilidade `s histórias desses jovens sobre seus cotidianos, enormes dificuldades que precisam enfrentar para garantir sua subsistência e seus sonhos de serem artistas. E a Agência de Redes os ajuda a reconhecer seu potencial e força para realizar projetos coletivos, reunindo outros jovens com realidades semelhantes que beneficiam a todos.

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