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A PANDEMIA E O DIREITO À CULTURA

Foi pelas redes sociais da Agência de Redes para Juventude que chegou o retorno: Sara Torres, jovem mãe e moradora da Vila Kennedy, Zona Oeste do Rio, tinha recebido a cesta básica, o kit de higiene e o livro do projeto Geração que Move*. E a recepção em casa, quando chegou com o livro O Futuro do Horácio, da Turma da Mônica, foi um sucesso. Em vídeos compartilhados pela jovem, os filhos de quatro e seis anos pediam bis – já tinham escutado a mãe contar a história de tarde, mas queriam entrar no universo de Horácio mais uma vez antes de dormir. “Eu crio eles sozinha, às vezes é difícil. Mas penso que o livro tem que fazer parte da vida deles. Eu sempre gostei de livros e sempre quis dar isso para eles também. Às vezes os livros trazem lições de vida, isso ajuda a construir a consciência da criança e o caráter também”, comenta Torres.

A busca pelos livros começou em abril, quando o idealizador da Agência, Marcus Faustini, foi ao RJTV. O objetivo era divulgar a campanha e mobilizar doações de livros para famílias lideradas por jovens em favelas e periferias das zonas Norte e Oeste. “Está faltando neste momento uma visão clara dos governos em relação aos jovens, adolescentes e crianças. Qual é a política de apoio para eles passarem por esse momento? Entregar os livros é uma forma de chamar a atenção da sociedade e de mandar um sinal para esses jovens de que a sociedade está pensando neles e no que estão vivendo agora”, disse Faustini na época.

Isabela Duarte, coordenadora de voluntariado do Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (INTO), foi uma das pessoas que descobriu o Geração que Move a partir da matéria. Ela decidiu redirecionar os livros que estavam parados por causa da suspensão das atividades de voluntariado no hospital. “Pensei que tinha os livros, um estoque legal. Por que não doar para uma ação importante neste momento? A situação que a gente está vivendo é uma situação de guerra, e a gente precisa ajudar. Se não estou podendo fazer pelo meu paciente hoje, a gente dá um outro jeito. O que não pode é paralisar, a ação tem que ser fluida”, argumenta Duarte.

Um ponto que ela considera específico da leitura e que pode ajudar tanto pacientes quanto famílias em vulnerabilidade social é o fato de que ler requer concentração. “A leitura concentra, e quando a pessoa se concentra, ela esquece um pouco a realidade que está vivendo. Acho que é hora de investir nesse lado lúdico mesmo, que a criança se transporte para um outro lugar, de esquecer um pouquinho o que ela está passando, porque é um momento muito difícil, né? Foi isso que me motivou a doar”, explica.

Quem também colaborou com a campanha foi a Companhia das Letras, que reafirma a importância do acesso a bens culturais, ainda mais necessário no contexto atual. Isabela Santiago, da Divisão de Livros Infantis da editora, usa o exemplo de Sara Torres com os dois filhos para falar do papel do livro, especialmente durante a pandemia: “O livro neste momento é um instrumento de conexão com os filhos, de ampliação de horizontes e de novos mundos.  É um instrumento de inclusão nesses tempos, mesmo que a distância”, afirma.

Outra família beneficiada pelo projeto foi a de Mary Gracy, jovem moradora do Cesarão, em Santa Cruz. Ela e a mãe ficaram sem renda durante a pandemia. O sustento passou a vir das máscaras que elas costuram e vendem na região. A cestas básica, kit de higiene e livro entram como um importante reforço nesse momento de dificuldade. Gracy, formada em artes visuais e apaixonada por documentários, pegou o livro Guia Carioca de Gastronomia de Rua 2. “Gostei muito de como o livro valoriza a cultura local e de como tudo é documentado nele”, conta a jovem.

O cineasta e autor do livro, Sérgio Bloch, foi o responsável pela doação. Ele apoiou o Geração que Move com os três livros de seu projeto Gastronomia de Rua. “Já era um desejo fazer os livros circularem dentro das favelas, é onde eu realmente queria que circulassem”, afirma Bloch. Os livros chegaram a diversas favelas do Rio, e no Cesarão, serviram de inspiração. O namorado de Gracy, formado em gastronomia, adorou a ideia da cocada da Cris e do Evandro, servida na casca do coco. Ele trabalha com doces, e como já tinha os ingredientes em casa, resolveu fazer uma versão.

A página do livro Guia Carioca de Gastronomia de Rua 2 e a versão de Marcos, namorado de Mary Gracy

Outros livros que circularam em territórios populares foram os da Editora Pallas. A doação que possibilitou o acesso a livros de Conceição Evaristo e da escritora cubana Teresa Cárdenas fez o livro Cachorro Velho, da última autora, chegar às mãos de Dayvidson Maurício, jovem morador da favela do Muquiço, em Guadalupe. Ele se interessou pelo fato de o livro abordar a escravidão: “Mesmo tendo sido abolida, a gente vê rastros de escravidão no nosso país até hoje. Além disso, é uma autora diferente, cubana”. Estudante de direito, o jovem adora ler. “Não parece, mas eu adoro”, diz ele. Sobre o estereótipo acerca de quem poderia gostar ou não de ler, o jovem conta que, por ser morador de favela, muitos o rotulam a partir da própria visão – como se alguém como ele não pudesse gostar de ler. “Eu gosto de ler porque abre a minha mente, me ajuda a ter outros olhares e perspectivas de vida”, relata Maurício. Há muitos outros Maurícios pelo Rio de Janeiro. São jovens, adolescentes e crianças que precisam ter tanto o acesso aos livros quanto o direito a gostar de ler. São eles que o Geração que Move busca alcançar.

* O projeto Geração que Move é uma iniciativa do UNICEF em parceria com Fundação Abertis e Arteris e realizado pela Agência de Redes para Juventude na cidade do Rio. A equipe da Agência atua com dez duplas de jovens e adolescentes de favelas e periferias, em duas frentes: produção de conteúdo com informações seguras e mobilização social em seus territórios, com a entrega de cestas básicas e livros. No Rio, o projeto tem apoio do Instituto Unibanco e do People’s Palace Projects.

** Sérgio Bloch se coloca à disposição para doar mais livros a projetos que estejam atuando na linha de frente em favelas e periferias do Rio. Para mais informações, entrar em contato pelo email sbloch@terra.com.br.

2 Comentários

  1. Marcelo Índio disse:

    Excelente iniciativa, parabéns aos envolvidos. Há um fato marcante que pode ser atribuído a essa questão do racismo. O racismo não é resolvido somente com educação e sim com postura e conduta de pessoas engajadas e com foco de despertar um conceito de mudança. O racismo na minha opinião é herança e uma cultura muito protegida por séculos. Não somente por causa da cor da pele e sim por diferenças sociais. Atingir o foco do racismo em sua raiz é colocar em prática muitos conceitos. Na verdade de cima pra baixo.
    E outra questão importante é a diversidade cultural principalmente das periferias. Direcionar esses jovens a um conhecimento. No meu caso , tento de uma forma relacionado a cultura do meu bairro, preservar e resgatar a cultura dos mascarados e Clóvis. Tenho pesquisado muito e vi a possibilidade de direcionar muitos jovens ao conhecimento do seu próprio bairro e de suas crenças e tradições. Mas esbarro na falta de apoio…pois nesse caso há o ” racismo” cultural . Não só a cor da pele como havia citado. A nossa resistência e amor as nossas heranças que são os pilares que levam o legado adiante.

  2. Anderson disse:

    Agência uma das minhas ref desde 2012

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