A linguagem e a vida são uma coisa só #2

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por César Campos, Jean Carlos, Marina Moreira e Tábata Luz

Na última quarta-feira, 27 de março, dentro da programação do primeiro Home Theatre – Festival Internacional de Cenas em Casa, histórias de 18 jovens das comunidades Borel, Cantagalo, Pavãozinho e Cidade de Deus, viraram cenas da mostra “A linguagem e a vida são uma coisa só #2”. Todos os personagens passaram pela Agência de Redes para Juventude.
As 18 cenas são dirigidas por Kerry Michael, diretor do Theatre Royal Stratford East, e pela diretora Susanna Kruger, e foram criadas em conjunto com atores selecionados para o Festival.

A mostra foi inspirada no livro “Cartas a um jovem poeta”, que reúne a correspondência do escritor alemão Rainer Maria Rilke ao aprendiz Franz Kappus.

Os atores foram encorajados a presentear cada jovem com uma cena.

O grupo dirigido por Susanna Kruger é composto pelos atores Fabiano Manhães, Cleber Salgado, Paulo Rhasta, Leandro Santanna, Marcelo Patrocinio, Talitta Daniel, Lucas Valentim, Barbara Fontana e Lucianna Magalhães.

Os jovens que contaram suas histórias são Jade Olímpio, Carlos Eduardo, Frederico Castilho, Fabricio Jefferson, Thais Vieira, Welbert Coni, Jessyca de Melo, Joyce Pires e Daiane Porto.

Na esquerda, o grupo dirigido por Kerry Michael; na direita, o grupo de Susanna Kruger. Os atores tiveram uma semana para criarem suas cenas.

 

 

 

 

 

 

 

 

Já o grupo dirigido pelo diretor Kerry Michael contou com os atores Aline Jones, Breno Motta, Dyonne Boy, Junior Vieira, Lili Castro, Mariah Viamonte, Morgana Bernabucci, Nubia Pimentel e Patricia Giuntini.

Os jovens que participaram desse processo são Adany Lima, Carol Meireles, Elivania Rosendo, Fabiany de Souza, Lourena Aguiar, Marcelo Magano, Ricardo Fernandes, Raquel Canela e Vinicius Lamarca.

O processo de criação começou na semana anterior às apresentações. Ao longo de três dias, os nove atores conheceram os nove jovens. Depois disso, os atores se reuniram em grupos e listaram nove palavras características das histórias ouvidas. Era preciso que cada ator adivinhasse de quem o grupo estava falando, a partir das referências que eles trouxeram para a história.

Para a diretora Susanna Kruger, um festival como esse permite que as pessoas possam ouvir as histórias das outras. “É um projeto transformador, que não diz como o teatro deve ser feito a partir de agora, mas abre uma nova possibilidade”, afirma a diretora, e destaca ainda que o pouco tempo de trabalho traz mais foco para criação do ator.

“É uma grande responsabilidade representar esse jovem, na primeira edição desse Festival. Se der certo, é a nossa cara que está aí! É uma resposta para cidade!”, diz o ator Paulo Rhasta, impressionado pelo orgulho dos jovens ao contar suas histórias.
“Mesmo as histórias tristes não eram contadas com pena”, completa Paulo.

A possibilidade de sair de um palco convencional para atuar em outros espaços também abre novas maneiras de construir uma cena. Os atores visitaram as casas e espaços desses jovens para conhecerem os locais onde suas histórias seriam apresentadas.

CIDADE DE DEUS

O ator Fabiano Manhães participou do ensaio de dança de Fabrício Jefferson, do projeto Movimentos

Fabiano Manhães, visitou a casa e o ensaio de dança de Fabrício Jefferson,16 anos, na Cidade de Deus. O encontro aconteceu na terça-feira, um dia antes da apresentação. Apaixonado pela dança, Fabrício conta que foi difícil pra ele, pois sua mãe não aceita muito a ideia da dança na sua vida. Para ficar mais próximo da escola, foi morar na casa de seu amigo Adany Lima, 30 anos, parceiro no projeto Movimentos.

Fabiano participou do ensaio, e na cena apresentada na casa de Adany, não esqueceu da dança como uma forma de costurar as diversas fases da vida de Fabrício. A platéia era formada em sua maioria por amigos. De Sandy e Junior à Lady Gaga, passando por Deus e a história da primeira namorada, em 20 minutos, o ator fez daquela sala na CDD um palco de memórias. “Ficou perfeito!”, disse Fabrício.

Lucas Valentim em cena interpretando a jovem Jade Olímpio, do CDD na Tela

“A gente tenta expressar nossos sentimentos através da música, daí vem alguém com sua arte e mostra que te entende. Para mim foi uma cura”, disse Jade Olimpio, diretora de produção do CDD na Tela, sobre a cena do ator Lucas Valentim.
A apresentação aconteceu no banheiro e contou a presença de amigos e parentes.Entre tantos pontos marcantes, o ator cortou o cabelo – aspecto físico que permeou a construção de identidade da jovem.

 

 

CANTAGALO/PAVÃOZINHO

Na casa da jovem Joyce Pires, mais especificamente no salão de beleza da mãe da jovem, Dona Joelma, o ator Leandro Santanna preparou uma cena que emocionou a todos os presentes no Pavãozinho.

A jovem Joyce Pires e o ator Leandro Santanna pouco antes da apresentação da cena

“O processo de criação da cena foi louco, to curiosa para ver logo! Estava em uma semana super correria com o Boca de Lixeira, e um dia fui convidada a ir em um hotel para contar minha história de vida. Eu já fiz teatro, adoro assistir peças, mas encenar não é comigo, prefiro atuar na vida real mesmo!” disse Joyce Pires, pouco antes de assistir à cena.

 

No Cantagalo, a casa da jovem Daiane Porto, recebeu a atriz Talitta Daniel.
”É um texto curto e tem muita dança, muito movimento corporal, que é a minha linguagem”, disse Talitta, que utilizou fotos para compôr o cenário.

Da esq. p/ dir.: Liliane Santos, Dayelin Porto, Daiane Porto e Rony Porto

“A Daiane me perguntou se podíamos incluir nossa casa na programação do festival. Como ela já participa da Agência, aceitei numa boa. A única coisa que sei é que a atriz deve colocar algumas coisas das nossas vidas na cena, porque sei que a Daiane contou para ela um pouquinho da nossa história” disse a mãe de Daiane, Liliane Santos, sobre o processo de receber uma cena teatral em sua casa.

 

BOREL

Marcelo Patrocinio em cena interpretando a jovem Thais Vieira, do Centro de Integração Borel

No Borel, a casa de Thais Vieira, do Centro de Integração Borel, recebeu a cena de Marcelo Patrocinio. A palavra liberdade norteou toda a cena. “Ela me contou sua história como um desabafo”, disse o ator, que procurou delicadeza nas palavras e nos objetos.
No final da apresentação, Marcelo entregou à Thais um mapa afetivo, desenhado por ele, como uma maneira de impulsionar os caminhos da jovem.

Lucianna Magalhães mostrou o prazer de Carlos Eduardo, do projeto Melhor da Dança, em morar na Formiga.

Em sua cena, ela reproduziu a frase que o jovem costuma dizer: “Eu tenho uma visão privilegiada!”. No cenário, a atriz também mostrou a vontade do jovem em transformar tudo em imagem, ao utilizar uma moldura de quadro.

Lucianna Magalhães em cena interpretando o jovem Carlos Eduardo, do Melhor da Dança

“Me surpreendi! Foi uma novidade, diferente de tudo que já havia presenciado no teatro, fiquei emocionado. A parte que mais me comoveu, foi vê-la cortar um tacho do seu próprio cabelo. Percebi que ela se entregou para fazer com que isso fosse um presente para mim. Fiquei muito agradecido com todos que estiveram aqui.” disse Carlos Eduardo.

No manifesto do Festival Home Theatre, a casa é espaço invenção de arte. A beleza desse processo esteve na amizade criada entre cada jovem e ator e a rede de casas que se abriram para conectar diferentes histórias e emoções.
A potência dos jovens de favela está em si mesmo, na sua própria trajetória e desejos.

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